• hikafigueiredo

"A Árvore da Vida", de Terrence Malick, 2011

Filme do dia (242/2021) - "A Árvore da Vida", de Terrence Malick, 2011 - Jack (Sean Penn) relembra e revivencia sua infância, seu relacionamento com seus pais, o companheirismo de seu irmão e sua busca por autonomia, afastando-se da figura paterna.





Terrence Malick é um diretor que exige bastante de seu público. Suas obras jamais são de fácil leitura, sempre trazendo, no bojo, significados e simbologias que remetem a temas maiores, universais e infinitamente mais complexos. Este filme não foge à regra. Através de um sem fim de fragmentos da vida do personagem Jack, especialmente de sua infância, a obra nos convida a compreender não apenas o interior do mencionado personagem, mas abre-se para a própria compreensão da vida, abarcando, inclusive, aspectos religiosos e metafísicos. Já de início a narrativa aponta para a dualidade da existência humana - esta poderia ser trilhada pelo caminho da natureza, mais comezinha e egoísta, ou através da graça, altruísta e misericordiosa. A religiosidade permeia toda a obra - desde a figura do pai repressivo, rígido, à piedade da figura materna, até o final redentor, onde o perdão possibilita a paz interior do personagem. Este é um filme que vale a pena assistir duas, três vezes, pois, a cada investida, mais fácil e "digerível" é a interpretação. É praticamente impossível esgotar a leitura deste filme - são infinitos detalhes e metáforas que se sucedem e nosso olhar, por mais curioso que seja, nunca consegue captar toda a informação oferecida - mais um motivo para recomendar várias visitas à obra. A narrativa é completamente não-linear, indo e voltando no tempo e na história de Jack, ignorando qualquer cronologia. O ritmo é lento, lentíssimo, e pode ser o maior impeditivo para quem está acostumado a uma narrativa mais convencional. A atmosfera é onírica, sensorial, inebriante. Como toda a obra de Malick, há um apuro técnico minucioso. A fotografia é muito fluída, clara, a câmera está quase constantemente em movimento e os planos são, sempre, muito criativos e sofisticados - inúmeros são os contra-plongées, carregando a figura humana de grandiosidade e evidenciando a presença da graça divina nos seres, humanos ou não. Compreendo a necessidade de imagens imponentes, que nos remetam ao esplendor da natureza ou da criação divina e tudo o mais, mas devo dizer que as cenas "Discovery Channel" do filme me cansam um tanto. A sonoridade é bastante eclética - muitos são os sons distantes, abafados e as narrações murmuradas, remetendo-nos às memórias do personagem, mas também há a presença de diálogos curtos entre os personagens. A música é completamente incidental e acompanha praticamente a obra toda. A edição é um verdadeiro vórtex de imagens - ainda que pareçam um tanto aleatórias, as cenas que se sucedem são hábeis em criar todo um clima etéreo, uma certa "elevação" no espectador. No elenco, um Brad Pitt irretocável como o rígido pai - sua figura, bastante contraditória, alterna severidade com afeto, numa mistura que confunde tanto o personagem Jack, quanto o público; Jessica Chastain, por sua vez, interpreta a mãe, acolhedora, compreensiva e, claro, sem qualquer voz dentro de um engessado casamento típico dos anos 50; Sean Penn interpreta Jack adulto e ainda que tenha o menor tempo em cena, consegue transmitir todo o peso da mágoa que o personagem carrega; Hunter McCracken interpreta o jovem Jack, muito feliz em seu trabalho. O filme definitivamente não é para todo e qualquer público (os filmes do diretor nunca são) - há que se "trabalhar" muito nele e não é todo espectador que está aberto a esse empenho todo -, mas, ainda assim, é um filme que vale muito a pena. Eu só o acho um pouco longo, ele diria o mesmo com vinte minutos a menos. Grande experiência. Recomendo, mas recomendo também bom senso para quem se propõe a vê-lo.

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