top of page
  • hikafigueiredo

“A Barbárie”, de Andrew Sala, 2023

Filme do dia (143/2023) – “A Barbárie”, de Andrew Sala, 2023 – O jovem Nacho (Ignacio Quesada) foge da casa de sua mãe e busca abrigo numa distante fazenda de gado onde vive seu pai ausente. No local, ele vai se deparar com relações e comportamentos brutalizados e terá de rever a maneira como se coloca naquele mundo hostil.





Ainda que a trama aconteça em algum local do interior da Argentina, o que ela retrata é extensivo a muitos ambientes rurais, onde a brutalidade impera e quase não se diferem homens de animais. Fugindo de uma mãe violenta, o protagonista Nacho vai procurar abrigo na fazenda de seu pai, com quem tem uma relação fria e distante. Ali, ele vai encontrar um ambiente violento, não apenas pelo trato das coisas pelas pessoas, mas, também, nas relações estabelecidas entre patrão e empregados. O filme retrata o lento endurecimento de Nacho, um rapaz sensível que evidentemente não se sente confortável na forma como as coisas acontecem dentro da fazenda. Se, inicialmente, Nacho estranha as relações viciadas entre seu pai - o patrão - e seus empregados, paulatinamente ele passa a perceber nuances perturbadoras deste contato, as quais revelam muito maior violência do que seria razoável. Há, na fazenda, um trato brutal para com tudo - coisas, animais e pessoas - e a tensão das relações ultrapassa a simples luta de classes – patrão e funcionários exploram-se mutuamente, num relacionamento bárbaro e incivilizado. Enquanto o proprietário das terras e do gado aproveita-se de sua posição de privilégio, interferindo, inclusive, nas relações familiares dos empregados, estes expressam sua revolta e seu descontentamento através de condutas verdadeiramente cruéis e criminosas, que recaem sobre coisas e animai. Nacho entra nesse vórtice de violência sem muitos subsídios para se defender e, aos poucos, é engolido por aquela realidade, mimetizando comportamentos e relações. A narrativa é linear, em ritmo bastante moderado. A atmosfera é de incômodo e estupefação, reflexo claro dos sentimentos do protagonista. Tudo na obra é muito cru, muito seco, não há eufemismo nas imagens e ações e isso reverbera até no formato do filme, que não se preocupa em captar qualquer mínima beleza. A fotografia é bastante naturalista, sem floreios de luzes e sombras, sem posicionamentos de câmera sofisticados, sem saturação de cores ou contrastes – é uma fotografia quase “lavada”. O desenho de produção segue a mesma lógica e aplica-se para mostrar um ambiente hostil e nada acolhedor. As construções, mobiliário e objetos antigos revelam que as práticas brutais se reproduzem no tempo. Quanto às interpretações, Ignacio Quesada dá vida ao protagonista Nacho (apelido de Ignacio) – o trabalho do ator é um pouco frágil, principalmente no início do filme, momento em que a sutileza é mais necessária... ele se sai melhor quando Nacho passa a agir com menos urbanidade; Tamara Rocca interpreta a personagem Rocio, também sem grandes brilhos; Marcelo Subiotto interpreta o pai Marcos e chegou a receber prêmio em festivais por sua atuação (não vi motivo para tanto). Eu vejo competência no filme, em especial como ele retrata relações extremamente desiguais e profundamente desumanas no campo, mas não me senti especialmente envolvida pela obra. Ainda assim, é um bom filme. Recomendo.

2 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page