• hikafigueiredo

"A Bela da Tarde", de Luis Buñuel, 1967

Filme do dia (335/2021) - "A Bela da Tarde", de Luis Buñuel, 1967 - Séverine (Catherine Deneuve) é uma bela e rica dona de casa, esposa de Pierre (Jean Sorel), um jovem cirurgião de renome. Frígida, ela evita qualquer contato sexual com o marido, mas vive mergulhada em fantasias sexuais com outros homens, motivo pelo qual ela busca um prostíbulo para dar vasão aos seus desejos.





Junto com o hermético e surrealista "Um Cão Andaluz" (1929), "A Bela da Tarde" figura entre as mais célebres e polêmicas obras do diretor espanhol Luis Buñuel. Contando com um longínquo "eco" do cinema surrealista, o filme baseia-se no romance homônimo de Joseph Kessel e trata, a grosso modo, dos desejos, pulsões e fetiches da protagonista Séverine. A jovem - bela, rica, sofisticada e muitíssimo bem casada com um médico apaixonado por ela -, muito embora ame o marido, não encontra qualquer prazer sexual em sua companhia. Atormentada por devaneios em que se vê seviciada por homens desconhecidos e extraindo profundo prazer de tais visões, ela busca consolo em uma "casa de tolerância" como forma de alcançar o gozo sexual, impossível com o atencioso esposo. Se analisarmos bem, a história é extremamente ousada, quase revolucionária, mesmo considerando os novos ares na França na segunda metade da década de 1960 que culminaram com os movimentos de maio de 1968, isto porque coloca uma jovem mulher da elite - a que se esperava manter-se "bela, recatada e do lar" e, obviamente, subserviente ao marido e ao patriarcado como um todo - tomando sua vida nas mãos e satisfazendo seus mais íntimos desejos (porque, vamos combinar, a sociedade "aceita" a mulher pobre que se prostitui para pagar as contas, mas se escandaliza se a prostituta é bem nascida e rica). Acredito que a obra deve ter indignado muita gente, tanto pelo motivo que acabei de mencionar, mas, também, por colocar na mesa as questões do desejo e autonomia femininos - enfim, a hipocrisia. A narrativa é linear, mas entremeada pelos devaneios da protagonista, bastante picantes, e onde pode ser visto um leve ruído do surrealismo do diretor. O ritmo é moderado, em especial se considerarmos a comum lentidão dos filmes franceses. A atmosfera é lasciva, mas traz, ainda, certa angústia e melancolia, principalmente enquanto a personagem encontra-se em dúvida se cede ou não aos seus desejos. Visualmente, o filme é belíssimo, muito bem fotografado, uma fotografia suave, em planos simples e limpos, bastante convencionais. Destaque para o figurino de Séverine, totalmente assinado por Yves Saint Laurent (estilosa? imagine...). No elenco, Catherine Deneuve plena, alternando a "mulher de gelo" com momentos mais distensos, quando a personagem cede às suas pulsões e se entrega ao prazer - a atriz está maravilhosa por qualquer ângulo que se olhe!!!! Jean Sorel interpreta Pierre, o marido traído, lindo, mas insosso, completamente incapaz de "ler" a sua esposa; Michel Piccoli interpreta o personagem Henri Husson, um amigo de Pierre, fascinado por Séverine e um assediador nato - o ator consegue passar uma ideia de "ser asqueroso", verdadeiramente abusivo, alguém por quem a protagonista tinha verdadeira aversão; Pierre Clémenti interpreta Marcel, um tipo rude, que se encanta pela "Bela da Tarde", sendo correspondido por ela. O filme é maravilhoso, em todos os sentidos, um grande trabalho de Buñuel (e olha que eu nem curto sua fase surrealista). Verdadeiramente fascinante, é obrigatório para quem ama a sétima arte!

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