• hikafigueiredo

"A Filha Perdida", de Maggie Gyllenhaal, 2021

Filme do dia (03/2022) - "A Filha Perdida", de Maggie Gyllenhaal, 2021 - Leda (Olivia Colman), uma professora universitária de meia idade, viaja, de férias, para a Grécia. Lá, ela estabelece contato com a jovem mãe Nina (Dakota Johnson) e sua filha Elena, o que despertará dolorosas lembranças na professora.





Baseado no livro homônimo de Elena Ferrante, o filme discorre sobre um assunto envolvido por tabus e polêmicas: a maternidade tóxica. Acostumadas a sacralizar a maternidade, vista como natural, bela e generosa, onde as mães doam-se às suas crias, sacrificam-se por seus filhos e filhas, agradecidas e felizes por cada conquista de suas proles, as mulheres - não, as pessoas em geral - acabam por crer que a maternidade é vocação inerente às mulheres. O filme surge para discutir exatamente essa questão, colocando em pauta a falta de traquejo e até mesmo de vontade de algumas mães. A sociedade empurra as jovens (e não tão jovens) mulheres para a maternidade, cobrando-as este papel. Quando as mulheres "abraçam a causa" descobrem, da pior maneira possível, que maternidade, ou melhor, o "talento" para a maternidade, não é intrínseco a elas. Não bastasse isso, elas são cobradas, infinitamente mais que os pais, para que exerçam com maestria a nova função. E elas se descobrem sós. Para muitas mulheres, é o início da maternidade tóxica - tóxica não só para suas crianças, mas também para elas próprias. Mesmo as mulheres que optam verdadeiramente pela maternidade, por vezes se sentem exaustas e execram a função, mesmo que seja um sentimento passageiro e logo reencontrem o prazer e o amor incondicional por suas crias. Imagine, então, as mulheres que acabaram "jogando a toalha" e, por pressões externas, tornaram-se mãe sem estarem bem certas de sua escolha. Imagine o que é abrir mão de tudo o que é significativo, como carreira, amores, liberdade, por uma maternidade no fundo indesejada e que se torna uma agonia para todos os envolvidos. O filme trata exatamente desta questão - Leda tem um histórico traumático com a maternidade, o qual retornará com violência às memórias da professora quando ela começa a observar a jovem mãe Nina e passa identificar alguns sinais de que a moça se encontra exaurida pela maternidade. Sem fazer um juízo de valor - a coisa mais comum quando se apresenta uma mãe, no mínimo, desajeitada e egoísta -, o filme apresenta o verdadeiro abismo de conflitos em que Leda se atira ao tornar-se mãe. Ela se esforça para ser a mãe idealizada... no fundo, ao seu modo e com as suas limitações, ela ama suas filhas, o que não significa que quer sacrificar sua vida inteira por elas. O filme, então, passa a mostrar como podem ser dolorosos estes conflitos que misturam afeto, desejos, aspirações, medos, cobranças, pressões e, mais do que tudo, culpa, culpa, culpa. A obra também toca, ainda que bem mais leve e sutilmente, na questão da paternidade, aqui colocada como contraponto à maternidade, evidenciando o quanto a sociedade patriarcal exige das mães ao mesmo tempo em que "alivia" para os pais. Eu gostei demais como o filme trata destas questões, propondo uma reflexão ao invés de condenar, sem direito à defesa, a personagem Leda (não que ela seja uma fofa, não vamos exagerar; ela é uma personagem complexa, com virtudes e defeitos e que acerta errando e vice-versa; enfim, ela é humana). No seu primeiro trabalho na direção, Maggie Gyllenhaal mostra firmeza e entrega um trabalho que equilibra bem o comercial com o autoral. A narrativa é não-linear, passeando entre o passado e o presente de Leda, num ritmo moderado, mas adequado ao tema. A atmosfera geral é de desconforto e angústia - talvez, inclusive, essa minha percepção venha muito imbuída da idealização da maternidade, papel que abracei com convicção e da qual não me arrependo, de forma que a posição da personagem me é estranha como mãe (mas nem tanto como filha). A obra traz uma fotografia pouco contrastada e pouco saturada, com cores quase desmaiadas, e ignora a beleza cênica natural das praias gregas - a impressão que temos é que a diretora não quis desviar a atenção do espectador do assunto incômodo para a paisagem deslumbrante, tornando-a bem comum e banal. O elenco traz Olivia Colman como Leda - a atriz, fazendo jus ao seu talento, está maravilhosa e visceral como a transtornada professora; Jessie Buckley interpreta a jovem Leda em suas memórias e, embora esteja bem no papel, não transmite a profundidade da colega Colman, deixando mais evidente sua impaciência e sua ânsia pela vida do que os conflitos que marcariam a personagem mais velha; Dakota Johnson interpreta a jovem mãe Nina - errrrr... ela é linda, sem dúvida, mas eu a acho uma atriz bem limitada e aqui ela só confirma minha impressão dela; Ed Harris interpreta o personagem Lyle, que pouco exige do ator; no elenco, ainda, Peter Sarsgaard como o professor Hardy, Paul Mescal como Will; Dagmara Dominczyk como Callie e Jack Farthing como Joe. Este é um filme profundo, doloroso, e que exige certa "digestão" posterior. Vejo certo diálogo da obra com o filme "Tully" (2018), pelo tema da maternidade exaustiva. Eu curti e recomendo para quem gosta de filmes em que se explora o psicológico dos personagens. Está fácil, fácil, na Netflix.

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