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"A Flor do Crepúsculo", de Mikio Naruse, 1954

Filme do dia (366/2021) - "A Flor do Crepúsculo", de Mikio Naruse, 1954. Japão, década de 1950. Quatro ex-gueixas de meia-idade lutam para sobreviver com alguma dignidade, estando às voltas com filhos, ex-clientes, antigas paixões e problemas financeiros.




Baseado em três contos da autora Fumiko Hayashi, o filme discorre sobre questões relativas à solidão da mulher madura, independente de sua trajetória durante a juventude. As personagens da história são quatro antigas gueixas que tiveram de abandonar a profissão por já terem perdido o viço da juventude. Com um passado instigante e atribulado, as quatro mulheres vivem seu ocaso e descobrem, com tristeza, que qualquer que tenham sido suas opções quando jovem, sua velhice significará abandono e solidão. Nobu e Otomi optaram por serem mães jovens e, muito embora não tenham vivido para sua prole, acreditaram que teriam algum acolhimento de seus filhos quando idosas. Quando a filha de Otomi sai de casa para casar e o filho de Nobu muda-se para outra cidade para trabalhar, elas se vêem sozinhas, contando apenas uma com a outra. Tamae optou por se casar já em idade avançada e almeja pelo filho que dificilmente virá, para decepção do esposo. Okin preferiu ficar sozinha, sem filhos ou marido, mas memórias do passado insistem em bater à sua porta. Em comum às quatro mulheres, apenas a solidão, o vazio interior e a falta de perspectivas. O roteiro entrelaça as personagens que, por vezes são solidárias, praticando a sororidade, mas, por vezes, atritam-se em disputas e competições instigadas pela sociedade patriarcal e machista. A narrativa é linear, em ritmo bastante lento. A atmosfera é de desalento, angústia e vazio, mesmo quando a história foca em Okin, a personagem mais consciente de sua situação e que tem maior controle da própria desiludida vida. A fotografia P&B é suave, ainda que a cópia em péssimo estado não ajude muito a percepção deste atributo. Os planos são bem variados, mas concentram-se mais nos planos médios, apostando em uma linguagem bastante convencional (dos quatro grandes diretores japoneses da época - Kurosawa, Ozu, Mizoguchi e Naruse -, Naruse é certamente o mais alinhado com o cinema clássico hollywoodiano, ou seja, o menos autoral, o que não impede que suas obras tenham qualidade indiscutível, mesmo para quem prefere cinema autoral). A trilha sonora aposta em um som de orquestra também muito tradicional, com pouca influência da música típica japonesa. O elenco traz Sadako Sawamura como Nobu, Yuuko Mochizuki como Otomi, Chikako Hosokawa como Tamae e a grande atriz Haruko Sugimura como Okin - todas estão ótimas em seus papéis, mas o destaque certamente é Haruko Sugimura, atriz recorrente das obras de Ozu. Destaque para o belíssimo arco do encontro de Okin com Tabe, sua antiga paixão, interpretado por Ken Uehara, outro célebre ator japonês. A obra é bastante sensível e traz um olhar curiosamente bastante feminino acerca do processo de envelhecimento das mulheres e as questões decorrentes disto. Obra-prima, vale a visita.

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