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  • hikafigueiredo

“A História de Adèle H”, de François Truffaut, 1975

Filme do dia (150/2022) – “A História de Adèle H”, de François Truffaut, 1975 – Hallifax, Canadá, 1862. A jovem Adèle (Isabelle Adjani), segunda filha do escritor Victor Hugo, foge de sua família na França e atravessa o Atlântico, atrás de seu amor não correspondido, o tenente britânico Albert Pinson (Bruce Robinson), por quem ela fará de tudo para retomar o antigo romance.





Baseado no livro homônimo de Frances Vernor Guille, o qual, por sua vez, baseou-se nos diários de Adèle Hugo, o filme é um retrato da rápida degradação física e mental da segunda filha do escritor Victor Hugo, desencadeada por uma desilusão amorosa. Desde cedo, Adèle demonstrava certo desequilíbrio emocional, agravado pela morte acidental de sua irmã Leopoldine, quando Adèle tinha apenas treze anos, o que lhe gerou uma forte depressão e os primeiros sintomas de uma condição psiquiátrica mais complexa. Com o passar dos anos, a jovem foi mostrando cada vez mais sinais de sua instabilidade emocional, até que, em 1854 ela conheceu o tenente Albert Pinson e por ele se apaixonou. O militar correspondeu durante certo tempo seus afetos, mas, ao ser destacado para ir para Halifax, no Canadá, abandonou, sem muitos arrependimentos, a amante. Começa, então, o calvário de Adèle, que, alegando para seus pais que faria uma viagem a Malta, sai ao encalço de seu amado, atravessa o Atlântico e desembarca nas costas da Nova Escócia. A obra foca na obsessão de Adèle que não coloca qualquer freio em seu assédio ao antigo amante, chegando a ameaçá-lo por vezes e a humilhar-se por outras, na esperança vã de convencê-lo a se casar com ela. O filme consegue, como poucos, retratar o amor obsessivo e a ruína que o acompanha, levando a depauperada protagonista a um estado de quase demência, enquanto vaga no entorno do ser amado. A narrativa é linear, em ritmo marcado e agradável. A atmosfera é angustiante e melancólica, ainda que, no geral, o espectador não assuma, nunca, o olhar de Adèle – não, aqui acompanhamos a degradação da protagonista sempre como meros observadores, ou seja, esta não é uma obra essencialmente sensorial, onde há a compreensão da narrativa no âmbito emocional; não, diria mesmo que é um filme bastante “racional” (diferente, por exemplo, de outra obra protagonizada por Isabelle Adjani, o memorável “Posessão”, 1981). A obra traz um estupendo desenho de produção (eu continuo detestando essa expressão, prefiro mil vezes a boa e velha “direção de arte”), recriando toda uma época. Temos, aqui, o predomínio dos tons quentes, em especial do vermelho, que acompanha o declínio de Adèle, em especial em seu figurino (mas não apenas nele). A fotografia acompanha a tendência, trazendo, também as tonalidades quentes. Os planos e posicionamentos de câmera são bem convencionais, com exceção das cenas em que a protagonista sonha com o afogamento da irmã, momento em que Truffaut solta-se um pouco mais do convencionalismo. No elenco, temos, como protagonista, a excepcional Isabelle Adjani – eu acho essa mulher um escândalo, ela é toda perfeita, de sua beleza estonteante à sua interpretação irrepreensível! Adjani consegue encher sua Adèle de tanta humanidade, de tanta fragilidade, que mesmo no auge de seu comportamento claramente abusivo em relação ao ex-amante, nos condoemos por ela (o que talvez não acontecesse se a atriz não conseguisse alcançar essa sensibilidade da personagem). Adjani está magnífica, sendo indicada ao Oscar (1976) e ao César (1976) de Melhor Atriz por sua atuação (diria, inclusive, que o filme foi um marco na carreira da atriz, pois, depois dele, vários outros filmes cujas personagens mostravam essa instabilidade emocional foram oferecidos a ela, como o já mencionado “Possessão” ou, ainda, o ótimo “Camille Claudel”, 1988). No papel de tenente Pinson, um belo mas inexpressivo Bruce Robinson (até porque Adjani toma a tela, nem dá para dar atenção ao pobre ator). No elenco, ainda, Sylvia Marriott como Sra. Sauders. O filme é muito bom, redondíssimo. Por ser um Truffaut, talvez esperasse algo menos convencional, mas mesmo sendo bem conservador, o filme é excelente. Recomendo muito.

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