• hikafigueiredo

"A Liberdade é Azul", de Krzysztof Kieślowski, 1993

Filme do dia (23/18) - "A Liberdade é Azul", de Krzysztof Kieślowski, 1993 - Julie (Juliette Binoche) acaba de perder seu marido - um famoso compositor - e sua filha em um acidente de carro e precisará de muito esforço para superar o trauma e reconstruir sua vida.





Primeiro filme da Trilogia das Cores, a obra trabalha as questões da perda, da negação, do perdão e da superação. Além disso, o filme trabalha, também, temas como a memória, o apego, a liberdade e os lastros emocionais. A personagem Julie, após o acidente que vitimou sua família, entra num processo de auto isolamento que culmina numa quase morte em vida. Julie, incapaz de chorar e liberar suas emoções - sua dor, sua revolta, sua mágoa - tranca-se em si mesma e passa a viver num deserto emocional. Tenta, com todas as suas forças, libertar-se das suas memórias que, de tempos em tempos, surgem para atormentá-la. Nesse sentido, desfaz-se de sua casa, de todos os objetos nela contidos e muda-se, incógnita, para um apartamento na cidade de Paris. No entanto, não consegue se desfazer de um lustre de pedras azuis, o qual carrega consigo para sua nova moradia. Incapaz, ainda, de esquecer, Julie é o contraponto exato de sua mãe (interpretada pela excepcional Emmanuelle Riva), que portadora de Alzheimer, luta para manter suas memórias (questão perceptível face ao sem fim de fotografias espalhadas por seu quarto). A tentativa de desapegar-se fica evidente numa frase dita por Julie para sua mãe onde relaciona os afetos a armadilhas. Por outro lado, a necessidade de ter algum lastro emocional, algum objetivo, algum afeto, é mencionada em uma outra frase, dita a Julie por um músico de rua. Toda a obra, assim, está direcionada no sentido da superação e da reconstrução. O filme é o mais triste (quase depressivo) e introspectivo da trilogia (lembrando que "blue" é uma gíria para tristeza em mais de uma língua). A obra é, também, a mais musical de todas, sendo pontuada, constantemente, pela música inacabada do falecido marido de Julie. Como nos demais filmes, a direção de arte e fotografia privilegiam os tons de azul - que, com frequência, surgem quando Julie é atormentada por suas memórias. Novamente temos citações aos demais filmes - a idosa que tenta colocar a garrafa no lixo, a cena no tribunal (onde há uma rápida aparição dos personagens Karol e Dominique, de "A Igualdade é Branca", inclusive com parte da cena que aparece neste último). Juliette Binoche, simplesmente "divou" no filme!!! Não há expressão maior de sofrimento que o olhar vazio e a fisionomia alquebrada de Julie, que renderam, à Juliette Binoche, o Leão de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Veneza e o César (mais que merecidos). O filme é belíssimo, imperdível mesmo. Até estou em dúvida se gosto mais desse ou de "A Fraternidade é Vermelha", viu.... Excepcional, precisa ser visto.

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