• hikafigueiredo

"Ali", de Michael Mann, 2001

Filme do dia (429/2020) - "Ali", de Michael Mann, 2001 - EUA, 1964. O boxeador Classius Clay (Will Smith) torna-se o campeão mundial dos pesos pesados. Inteligente, articulado e politizado, Clay frequenta círculos mal quistos pelo "establishment" norte-americano, que passa a persegui-lo, situação agravada quando ele se converte ao Islã, muda seu nome para Muhammad Ali e se nega a se alistar no exército para lutar no Vietnã.





Nesta cinebiografia, acompanhamos dez anos da vida de Muhammad Ali - de sua primeira conquista do cinturão dos pesos pesados até a célebre luta contra George Forman pelo mesmo título, dez anos depois. Ainda que a narrativa englobe diversos aspectos da vida do campeão, dentre os quais o profissional e o afetivo, o que mais me despertou interesse foi quanto à controvertida figura política de Ali. Ferrenho defensor da luta pelos direitos civis da população negra norte-americana, Ali tinha estreitos laços de amizade com Malcom X e outras personalidades ligadas ao movimento negro e jamais afastou-se de suas convicções político-ideológicas, ainda que tenha sido bastante pressionado para tal. Sendo figura pública, endeusado por muitos, Ali é perseguido por dar voz às reivindicações da população negra, por defender suas raízes étnicas, por converter-se ao islamismo e, acima de tudo, por não se alinhar politicamente com o governo do país, o que o leva a se negar a lutar no Vietnã, guerra que considerava despropositada e sem sentido (com toda a razão do mundo) - o filme traz a famosa frase de Ali "no vietnamese ever call me nigger", que evidencia o contrassenso de lutar por um país onde seus mais básicos direitos eram, constantemente, renegados. Por sua postura decidida, Ali foi penalizado, perdendo seu cinturão e sua licença para lutar - o que não foi suficiente para que ele se dobrasse perante as autoridades norte-americanas. Por toda a sua trajetória de vida e, ainda mais, por sua coerência inquebrantável, Ali é figura admirável e continua sendo reverenciado até os dias de hoje. Ainda que esse conteúdo político seja bastante interessante, o filme peca em dois aspectos - o formato, excessivamente convencional, que não abre mínimo espaço para qualquer ousadia formal, e a narrativa, irregular, que contém diversas cenas tomadas por "tempos mortos" que quebram o ritmo e não têm função na forma como a história é recebida pelo espectador. Também não absorvi muito bem a escolha de Will Smith como protagonista: não que sua interpretação não seja muito boa, - ele até foi indicado ao Oscar por sua atuação! -, mas eu não consegui não deixar de vê-lo como... Will Smith (sinceramente: eu acho que isso é um problema pessoal meu, eu admito que ele fez um trabalho ótimo, mas eu não consegui perder o foco do ator, ele jamais se "transformou" em Muhammad Ali para mim...). Na minha opinião, a obra vale mesmo por trazer todo esse histórico político de Ali, porque, como filme, não posso dizer que tenha me impressionado - eu diria mais: Ali é maior que sua cinebiografia, MUITO maior.

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