“Antes da Meia-Noite”, de Richard Linklater, 2013
- hikafigueiredo
- 16 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Filme do dia (85/2025) – “Antes da Meia-Noite”, de Richard Linklater, 2013 – Nove anos após se reencontrarem, Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy) vivem em Paris com as filhas gêmeas que tiveram. Hank, filho de Jesse, que passara as férias escolares na companhia do pai e sua nova família em viagem pela Grécia, retorna para os EUA, e Jesse ressente-se por ter pouco tempo com o filho, causando um estremecimento na relação com Céline.

Terceiro e último filme da trilogia do “Antes”, a obra vem com o fechamento óbvio: relações longas têm altos e baixos, concordâncias e discordâncias e, eventualmente, discussões que elevam o tom e chegam aos limites da relação, colocando em risco toda e qualquer convivência saudável. Fico em dúvida se o filme era necessário ou se só foi feito para fechar a trilogia – dúvida que eu tenho em quase todas as trilogias, com raras exceções. Como no primeiro filme, acompanhamos algumas horas do dia do casal, mas, se lá havia a ânsia por extrair informações acerca do outro, aqui temos o reconhecimento profundo do(a) companheiro(a), um terreno familiar, confortável, seguro. Continuamos com o mesmo falatório, mas não mais restrito aos protagonistas, uma vez que aberto a outros personagens – o casal, prestes a terminar sua viagem para a Grécia, interage com amigos recém-feitos, ouve histórias sobre relacionamentos de terceiros e narra um pouco de suas experiências enquanto casal. A intimidade que existe entre Jesse e Céline é evidente, mesmo quando discordam de algo e a discordância resvala para uma discussão aberta e perigosa (será?). O filme, diferente dos dois que o antecederam, trabalha mais fortemente com a realidade e quase todo o magnetismo que havia anteriormente – justamente por ser pautado em uma sensação quase onírica – se esvai rapidamente, restando tão somente o real nu e cru. Okay, perde-se em sonhos e romantismo, mas sobra reconhecimento – qualquer pessoa que tenha vivenciado anteriormente uma relação longa e estável vai se reconhecer, em algum momento, naquele casal. E, entre conversas banais, diálogos densos e discussões abertas e violentas, percebemos que Jesse e Céline, como qualquer casal, está tentando fazer seu melhor e sobreviver à tensão e à complexidade que é qualquer vida a dois. Seguindo o mesmo esquema dos filmes anteriores, além da falação sem fim, também temos as andanças pela cidade – primeiro Viena, depois Paris e, agora, alguma ilha aleatória na Grécia. Ainda temos a mesma química entre os personagens, mas agora despida de ilusões e sedimentada na intimidade. Reclamação: por que, nos filmes, a mulher é sempre o lado mais dado à discussão, a parte menos conciliadora e a que mais arrisca a relação com brigas acaloradas? Essa imagem estereotipada da mulher me incomodou um pouco. Também fiquei desconfortável com o último diálogo, pois sou da opinião que existem, sim, coisas que não devem ser faladas, a não ser que seja uma decisão definitiva e você queira jogar a última pá de cal na relação. Na minha opinião, o filme está ali para fechar a trilogia com o choque de realidade, com a árdua viagem de volta ao mundo real, onde nada é cor-de-rosa. Eu até gostei da obra, mas, de todas, foi a que eu menos curti. Como trilogia, é válida, mas a paixão mesmo recai no segundo filme – “Antes do Pôr-do-Sol” (2004), o mais perfeito deles. Na minha opinião, a trilogia vale muito a visita, recomendando fortemente. Segundo o Justwatch, está disponível para compra/aluguel no Apple TV e na Claro Vídeo.



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