• hikafigueiredo

"Arábia", de Affonso Uchoa e João Dumans, 2017

Atualizado: 23 de ago. de 2019

Filme do dia (73/2019) - "Arábia", de Affonso Uchoa e João Dumans, 2017- Brasil - André (Murilo Caliari) é um jovem habitante de Ouro Preto, em Minas Gerais. Ele e seu irmão mais novo vivem quase sós, pois seus pais viajam constantemente a trabalho. Quando Cristiano (Aristides de Sousa), um operário de uma fábrica próxima, sofre um acidente de trabalho, chega às mãos de André um diário do trabalhador e o jovem entra em contato com a dura vivência do operário.





Pode não parecer - e talvez muitos espectadores não se deem conta disso - mas esta obra trata, no íntimo, do capitalismo e de suas mazelas. A vida de Cristiano - foco principal da obra - resume-se à sua existência como proletário. Sobrevivendo através de subempregos e trabalhos temporários, em condições insalubres e sem garantias, Cristiano vaga por Minas Gerais, atrás de qualquer oportunidade de trabalho que lhe permita viver mais um dia. Tudo na sua trajetória gira em torno de sua condição de trabalhador de baixa qualificação. E isso resulta numa solidão extrema de Cristiano, pois ele não fixa raízes, assim como os parcos amigos que cruza pela vida que, da mesma forma, transitam pelo estado atrás de meios de subsistência. Através da vivência de Cristiano, a obra mostra um pouco da "máquina de moer gente" que é o capitalismo, que separa, exclui e desumaniza os trabalhadores, vistos unicamente como "força de trabalho" e não como seres humanos. Não, a obra nem de longe é panfletária, ao contrário, é sutil, delicada, poética e muito sensorial e, para os desavisados que não leiam nas entrelinhas, parece tratar tão somente da experiência particular do personagem. É um filme melancólico, solitário e extremamente intimista. Formalmente, a obra apoia-se na narrativa em "off" de Cristiano - na realidade, a narrativa é a leitura do diário de Cristiano por André. A fotografia do filme é belíssima e a construção sonora, muito bem feita. A trilha sonora é delicada, mas discordo da opção pelo uso de algumas músicas internacionais ao longo do filme - acho que teria mais a ver o uso exclusivo de músicas nacionais e/ou regionais. Aristides de Sousa alcança uma interpretação bastante pertinente: o olhar vazio, cansado, a expressão desgastada, tudo ajuda na construção da imagem do proletário "sugado" pelo sistema. A obra é riquíssima em leitura e daria fácil, fácil, uma linda discussão de seu teor político e sociológico - impossível de aprofundar em poucas linhas. Curti demais e acabei de assistir ao filme com um espírito bastante introspectivo. Recomendo com carinho.


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