• hikafigueiredo

"As Irmãs de Gion", de Kenji Mizoguchi, 1936

Atualizado: 23 de ago. de 2019

Filme do dia (99/2019) - "As Irmãs de Gion", de Kenji Mizoguchi, 1936. Japão, década de 1930. Em Gion, bairro das gueixas de Kyoto, as irmãs Omocha (Isuzu Yamada) e Umekichi (Yôko Umemura) lutam para sobreviver. Enquanto Umekichi dedica-se ao Sr. Furusawa, seu antigo protetor, agora na miséria, Omocha busca um homem rico que a proteja.





Quanto mais filmes do mestre Mizoguchi vejo, mais me surpreende sua sensibilidade para a realidade das mulheres e seu discurso quase feminista! Se em "Contos da Lua Vaga" (1953), as personagens femininas, apesar de sábias, são as primeiras a sofrerem as consequências das atitudes equivocadas de seus maridos, em "As Irmãs de Gion" a realidade das mulheres japonesas no começo do século XX - em especial das gueixas - é escancarada, expondo toda a injustiça e desigualdade existente entre a vida de homens e mulheres. Nesta obra há uma crítica severa à forma como os "bons" homens da sociedade japonesa tratavam suas esposas e gueixas - mulheres treinadas, por anos, para satisfazer os desejos de seus clientes e protetores. O mais incrível é a conclusão que chegamos ao fim do filme: independente de que atitude que se tome, o resultado para as mulheres é sempre desastroso. Na obra em questão, temos dois extremos: de um lado a submissa e dedicada Umekichi, atrelada às tradições e extremamente leal ao homem que a protegeu no passado; de outro, Omocha, consciente das desigualdades entre homens e mulheres e revoltada com isso, manipula os homens e não mede esforços para tirar alguma vantagem deles. Cada uma das irmãs age de acordo com suas convicções, mas, o resultado de suas atitudes é praticamente o mesmo, graças à maneira como os homens interagem com elas - triste e verdadeiro discurso acerca da desigualdade de gênero. O filme é bem curto - pouco mais de uma hora - e conta com um ritmo constante, diferenciando-se um pouco do tradicional ritmo lentíssimo das obras cinematográficas japonesas. Destaque, aqui, para as interpretações das atrizes Isuzu Yamada e Yôko Umemura - sou fanzaça de Isuzu Yamada, atriz que trabalhou com gênios como Ozu e Kurosawa, sempre em papeis de importância e sempre maravilhosa! Ainda que não alcance a genialidade de "Crisântemos Tardios" e "Contos da Lua Vaga", o filme é muuuuuito bom e merece ser visto.

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