• hikafigueiredo

"As Irmãs Munekata", de Yasujiro Ozu, 1950

Filme do dia (33/2021) - "As Irmãs Munekata", de Yasujiro Ozu, 1950 - Setsuko (Kinuyo Tanaka) é casada com um homem desempregado e alcóolatra. No passado, ela fora apaixonada por Hiroshi (Ken Uehara), um homem gentil e próspero. Sua irmã Mariko (Hideko Takamine) conhece Hiroshi e passa a interceder a favor de sua irmã, incentivando que ela se divorcie do marido e volte para seu antigo amor.





Continuando a maratona Ozu proporcionada pelo box da Versátil, deparei-me com essa obra do diretor, a qual foge, um pouco, de seu padrão habitual. Claro que alguns elementos continuam lá, principalmente os formais, mas, quanto ao conteúdo, temos algumas não tão sutis diferenças. Em "As Irmãs Munekata", Ozu abandona sua costumeira placidez para apresentar uma história com muito mais drama do que habitualmente trabalha. Se, normalmente, o diretor retrata a vida cotidiana em seu momentos mais comuns e não em episódios excepcionais, o mesmo não acontece aqui. Neste filme, as personagens encontram-se, sim, próximas a um momento de ruptura, quando a vida de Setsuko está prestes a colapsar - o bar que administra está cheio de dívidas, seu marido alcóolatra torna-se, paulatinamente, mais abusivo, seu pai está seriamente doente e o reencontro com seu antigo amor Hiroshi apenas serve para potencializar os efeitos negativos de todas essas questões. A obra, então, lida com emoções dos personagens muito mais intensas e exacerbadas do que qualquer outro filme que já tenha visto do diretor. O espectador, aqui, é envolvido por sentimentos mais extremos do que em outras obras, num estilo que me lembrou mais a filmografia de Mizoguchi, conterrâneo de Ozu. Assumo que senti certo estranhamento neste filme. Admito, ainda, que fiquei um pouco indignada com a passividade da mulher na cultura japonesa, principalmente das mulheres casadas. Por outro lado, o filme traz, novamente, o conflito de gerações, comum em outras obras, no contraste entre a personagem Setsuko (representando o passado, as tradições, o respeito à cultura tradicional) e sua irmã Mariko (representando o novo, a modernidade, a ruptura com o passado e as antigas tradições), o que é evidenciado desde a caracterização das personagens (Setsuko sempre de quimono, Mariko sempre de roupas ocidentais) até por seu comportamento (Setsuko reservada, contida e passiva, Mariko extrovertida, ousada, impulsiva, chegando a ser, por vezes, até inconveniente). De qualquer forma, apesar de fugir das obras que lhe são típicas, Ozu continuou mostrando toda a sua competência no filme, ainda muito acima da média. O ritmo permanece lento, mas bem mais próximo de um ritmo ocidental. A fotografia P&B é suave, quase sem contrastes e sem ocupar posição de elemento dramático na história. Achei curiosa, também, a diferença na ambientação - Ozu, na maior parte de seus filmes, retrata bairros e casas bem tradicionais da cultura japonesa, mesmo quando permite a presença de elementos mais modernos, como fábricas e suas chaminés, torres de energia, etc; aqui, foram várias as cenas em que os personagens andam por bairros centrais, com grandes prédios e construções não-tradicionais, assim como as muitas cenas na casa de Hiroshi, muito mais parecida com uma casa ocidental do que com uma casa japonesa. No elenco, claro que não podia faltar Chishu Ryu (kkkkk... acho que eu errei, ele está em 11/10 obras do diretor), como o pai das duas irmãs; a maravilhosa Kinuyo Tanaka (meio que musa de Mizoguchi) interpreta a irmã Setsuko, expondo as suas emoções sempre de forma discreta; Hideko Takamine brilha como a irmã Mariko, em uma interpretação bem pouco convencional para uma personagem japonesa; Ken Uehara interpreta Hiroshi, mas não me chamou a atenção. O filme é, claro, muito bom, mas acho que eu prefiro a placidez das outras obras do diretor. Recomendo, mas jamais começaria a conhecer Ozu por este filme.

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