• hikafigueiredo

"Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019

Filme do dia (109/2019) - "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019 - Brasil, algum ano futuro. No meio do sertão pernambucano, há o povoado de Bacurau. Após a morte de Dona Carmelita, anciã de 94 anos, o povoado é ameaçado por um perigo externo, mas sua população não pretende se deixar abater.





Ufffff. Existem filmes que são difíceis de se escrever sobre. Algumas vezes pelas significâncias e representações neles contidas; outras vezes, pelo envolvimento emocional de quem escreve, o que afasta qualquer chance de um olhar minimamente imparcial; e, por vezes, pela importância que a obra assume dentre outros tantos filmes, seja pelos conteúdos, seja pela forma. "Bacurau" é exatamente esse tipo de obra - penosa para se escrever sobre, uma vez que abarca todas as possibilidades acima mencionadas. Precisei ver uma segunda vez para tomar coragem e tentar pincelar alguma coisa sobre o filme, tudo de uma forma muito muito modesta. Mas, sigamos. Antes de qualquer coisa, "Bacurau" é um portento. É obra rara, das que não aparecem com frequência, seja no cinema nacional, seja no estrangeiro. Do ponto de vista das representações e dos significados, o filme é quase um tratado acerca da realidade brasileira nos anos 2010 (e do futuro próximo). Tudo ali é metáfora do que estamos vivendo, tudo tem um porquê, tudo propicia uma leitura político-social que nos remete ao hoje e ao "daqui a pouco". Nem vou me propor a esmiuçar tais conteúdos, primeiro porque é coisa demais, daria tese de mestrado das boas; depois porque tiraria qualquer prazer do coleguinha em fazer sua leitura pessoal, e isto é algo imperdoável. Mas destaco a principal mensagem contida na obra (o que não estragará a leitura dos detalhes, já que essa mensagem é óbvia e até meu pug burro consegue compreender) - venha o que vier, resistiremos. O filme é uma ode à resistência e à resiliência. É um recado para quem quiser ouvir de que o povo brasileiro, mesmo aquele dos rincões mais afastados, é duro na queda e não se entregará facilmente. Considerando a atual situação política do país, essa é uma mensagem necessária, que propicia algum alento àquela parcela da população que se sente desamparada (na qual me incluo). Todos os demais significados contidos - que não são poucos - estão diretamente ligados à essa mensagem, a enriquecer o conteúdo da obra. Colocando de lado a interpretação dos significados, chegamos ao envolvimento emocional - eu me sinto completamente tomada pelo filme. Inebriada seria um bom adjetivo. A obra é extremamente hábil em envolver o público, é um tsunami de tudo - forma, conteúdo, emoções, sensações. É impossível sair do filme indiferente - e daí a dificuldade em escrever sobre ele. Por fim, pela importância, a obra é um marco no cinema nacional - sua importância reside não apenas do conteúdo político do filme, mas, ainda, pelo reconhecimento que atingiu dentro do panorama do cinema mundial, inclusive pelos prêmios que ganhou em Cannes, dentre os quais o Prêmio do Júri. Formalmente, o filme é incrível. Extremamente bem feita, a obra conduz o espectador a um verdadeira montanha-russa emocional - a direção excepcional de Kleber Mendonça brinca com o público e o leva aonde quer. (isto está gigante, ninguém vai ler...). Destaques: montagem precisa e eficiente, trilha sonora maravilhosa (atenção na letra, pelamor) e interpretações fantásticas, com destaque para a diva suprema Sônia Braga no papel de Domingas, Thomas Aquino como Pacote (ele é incrível!!!) e Silvero Pereira como Lunga (que olhar é aquele, meu Deus???? De onde vem tanta gana???). Quem chegou até aqui e ainda não viu a obra, tem que correr para ver. Obra-prima. Obrigatório.

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