• hikafigueiredo

"Bagdad Café", de Percy Adlon, 1987

Filme do dia (300/2021) - "Bagdad Café", de Percy Adlon, 1987 - Durante uma viagem pelo deserto de Mojave, EUA, a turista alemã Jasmin (Marianne Sägerbrecht) discute com seu marido, o qual a abandona na estrada. Caminhando pela rodovia, no meio do nada, ela chega a um motel-posto-bar de nome Bagdad Café e decide por ali permanecer. Brenda (CCH Pounder), a proprietária do local, no entanto, mostra-se contrariada por essa decisão.





Sucesso indiscutível quando de seu lançamento, esse filme alemão falado em inglês é uma obra bastante peculiar. Ele consegue ser melancólico e "good vibe" ao mesmo tempo e discorre sobre fins de ciclo, recomeços, amizades, descobertas, transformação e tem espaço até para sororidade. Abandonada pelo marido no meio do deserto, Jasmin chega ao Bagdad Café, onde Brenda acaba de expulsar seu marido de casa. Ambas, sozinhas, sem qualquer ponto em comum - Jasmin, estrangeira, branca, sem filhos; Brenda, negra e agora mãe solo - vão, num primeiro momento, se estranhar, mas, paulatinamente, vão encontrando sentimentos e dores compartilhados por ambas, abrindo, assim, espaço para uma aproximação. O início do filme é carregado, há nele o peso da incompreensão, do abandono, da solidão. O próprio local encontra-se perdido no meio do nada. Neste momento, sobra melancolia na história. Mas, há um momento na narrativa em que há um "click" - as duas personagens passam a compreender uma à outra e se apoiar mutuamente. De repente, toda a atmosfera do filme muda e entramos num clima gostosinho, alto astral, completamente diferente do que vinha acontecendo até então. A narrativa é linear, em ritmo bastante moroso no início e um pouco menos ao final, mas sempre meio "preguiçoso". O filme transborda poesia e delicadeza, mas pode ser incompreendido por quem está acostumado a um ritmo mais marcado. Tecnicamente, a obra brinca um pouco com a linguagem que usa. Saindo do mais convencional, há mudanças de tom da fotografia, uso de cores não naturais e efeitos óticos; os planos, principalmente no início, são criativos, os posicionamentos de câmera, ousados, causando estranhamento (mais de uma vez, o enquadramento mostra-se "torto", pendendo para um dos lados, dando ideia de desequilíbrio). A trilha sonora, quase toda melancólica, traz o hit "Calling You", de Jevetta Steele, que, além de concorrer ao Oscar na categoria Melhor Canção, ainda grudou, insistentemente, nos ouvidos inocentes dos espectadores (e eu sinto que ela ainda está tocando, em algum lugar obscuro, dentro da minha cabeça). O elenco é composto por Marianne Sägebrecht, musa do diretor, totalmente fora de padrão e com um apelo incrível como Jasmin. A personagem mostra-se sensível, mas, ao mesmo tempo, tem uma força interior impressionante e acaba sendo o elemento de modificação primordial da história. No papel de Brenda, CCH Pounder, igualmente fora do padrão e com um olhar expressivo que faz com que a personagem exponha todas as dores e mágoas do mundo. É uma personagem muito interessante, pois, sob a dureza superficial, surge uma mulher doce e compassiva. Jack Palance interpreta o pintor Rudi Coxx - o ator, sempre relacionado a personagens vilões, aqui mostra-se todo empático e vê em Jasmin uma inspiração. Eu gostei muito da primeira vez em que vi e continuei gostando na revisão. Não acho que seja filme para qualquer público por conta de seu ritmo muito lento e sensibilidade exacerbada, mas, com certeza, vai agradar quem gosta de drama e filmes poéticos. Vale muito a visita.

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