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  • hikafigueiredo

"Blade Runner - O Caçador de Androides", de Ridley Scott, 1982

Filme do dia (133/2022) - "Blade Runner - O Caçador de Androides", de Ridley Scott, 1982 - Los Angeles, 2019. A tecnologia possibilitou a criação de androides idênticos aos seres humanos, chamados replicantes. Os replicantes seriam utilizados como escravos nas colônias interplanetárias. Na Terra, os replicantes eram proibidos e aqueles que se revoltavam contra sua escravidão e fugiam para a Terra eram caçados e sumariamente executados. Após alguns replicantes aportarem à cidade, um ex-caçador de androides, Rick Deckard (Harrison Ford), é escalado para encontrá-los e executá-los.





Inegável obra-prima do neo-noir, o filme foi alçado a cult pouco tempo após uma fria recepção ao seu lançamento nos cinemas. Eu assisti à obra pela primeira vez em VHS, com o corte do cinema, que incluía um aberrante final feliz com cenas bucólicas reaproveitadas de restos do filme "O Iluminado" (1980) - sim, é isso que vocês entenderam, os produtores pegaram uma cenas aéreas do filme de Kubrick e enfiaram no final de "Blade Runner", algo completamente deslocado do filme. Assim, foi com prazer que reassisti à obra com o corte do diretor, sem as aberrações incluídas pelos produtores - e vamos combinar: muito melhor que o corte do cinema. O filme começa apresentando um futuro distópico - a humanidade vivendo em cidades ultra-lotadas, num ambiente evidentemente insalubre e sem qualquer perspectiva de melhoria; as grandes corporações - a exemplo da Tyrrell Corp., a corporação responsável pela criação dos androides - dominam a economia e a sociedade, manipulando qualquer decisão político-econômica; a globalização abriu espaço para uma cultura pasteurizada e generalizada, acabando com qualquer nuance étnica-cultural; a biodiversidade foi destruída e toda e qualquer forma de vida animal e vegetal só permanece existindo através da engenharia genética; a sociedade, colapsada, vive uma clara decadência moral. Neste contexto, nos é colocada a demanda do conflito entre os humanos e os replicantes, o que abre um enorme leque de questões éticas de difícil solução - considerando que os replicantes eram criados através da engenharia genética à imagem e semelhança dos humanos, o que os diferenciavam de seus criadores? O que significaria ser "humano"? Quantas questões morais se colocam quando os seres humanos, portando-se como deuses, passam a criar outros seres com autoconsciência para servi-los e se dão ao direito de tirar-lhes todas as escolhas, escravizá-los e até mesmo executá-los friamente? Pois é essa profundidade temática e esse questionamento ético que fazem do filme a obra-prima que é. Sem dar spoilers - o que, nesse caso, realmente acabaria com qualquer experiência em relação ao filme - , comunico que a narrativa é tal que torna inevitável tais questionamentos. Inclusive, há uma discussão muito profícua em relação à natureza do personagem Deckard - ele, na realidade, seria um humano ou um replicante? A questão é colocada de maneira ambígua e impõe ao espectador uma resposta pessoal a este litígio (só digo que eu tenho a mesma opinião do diretor Ridley Scott e, caso alguém queira saber qual é, após ver o filme, posso expô-la no privado, mas não na discussão aberta para não ferrar a leitura do coleguinha). A narrativa é linear, em um ritmo bastante lento, e, mesmo na cena do confronto final, o ritmo ainda é infinitamente mais pausado do que outras obras congêneres. A atmosfera é a de um filme noir - pesada, ambígua e conflituosa. Aliás, a obra reaproveita inúmeros elementos dos filmes noir clássicos - da presença de um policial em conflito, à existência de uma femme fatale, na figura da personagem Rachael, às questões relacionadas à flexibilidade moral e aos ambientes escuros e esfumaçados. O filme se alicerça, ainda, no cyberpunk, termo cunhado no início dos anos 80 para descrever obras de ficção científica fundadas em um alto desenvolvimento tecnológico em contraposição à realidade distópica em que a ação se desenvolve. Se formos analisar friamente, a obra praticamente "gabarita" as características do cyberpunk, mas, se eu fizesse isso aqui, viraria uma tese de mestrado e ninguém iria ler, então, quem tiver interesse sobre o assunto, pode pesquisar por conta própria. Tecnicamente, o filme é um colosso para a época em que foi realizado. A fotografia colorida, muito, muito escura, pontuada pelos neons coloridos e com certo apelo da fotografia publicitária é perfeita para a obra. A câmera opta por ser bastante fixa, com enquadramentos bem convencionais - não temos aqui grandes malabarismos em termos de movimentação ou posicionamento de câmera (graças à deusa, porque seria muita informação ao mesmo tempo); a direção de arte do filme é simplesmente brilhante, criando uma ambientação sufocante, úmida (chove só o tempo todo!), escura (mesmo quando parece ser dia, os ambientes são muito escuros por conta da profusão de arranha-céus gigantescos) e claustrofóbica mesmo em locais abertos (as ruas são diuturnamente lotadas de pessoas dos mais variados tipos físicos). Tudo no filme rescende à distopia - a tecnologia avançada, que permite viagens interplanetárias, engenharia genética e carros voadores não chega à população, que vive em prédios decadentes e caindo aos pedaços, alimenta-se mal em barraquinhas no meio das ruas e trabalha em lugares insalubres (mesmo as atividades voltadas para a tecnologia têm sua base em pequenos laboratórios caquéticos e sem grande infraestrutura, como pode ser visto no laboratório de olhos). A trilha musical ficou por conta do músico Vangelis e tem o apelo futurista adequado à obra (eu quase furei meu vinil da trilha sonora do filme, lá pelo final dos anos 80). O elenco tem, em primeiro plano, Harrison Ford como o blade runner (caçador de replicantes) Rick Deckard - o ator encarna com perfeição o protagonista, ainda que eu consiga ver alguns maneirismos do ator presentes em seus demais personagens marcantes, como Han Solo em "Guerra nas Estrelas" (1977+) e Indiana Jones de "Os Caçadores da Arca Perdida" (1981); a personagem Rachael é interpretada pela deslumbrante Sean Young - a atriz personifica com perfeição a femme fatale típica dos filmes noir; Daryl Hannah interpreta a replicante Pris e está maravilhosa no papel - adoro a contraposição entre a doce replicante feita para "diversão" masculina e a fúria da androide frente ao caçador; mas, para mim, o filme é de Rutger Hauer como o replicante Roy Batty - mais uma vez, sou suspeita de falar do ator, porque sou apaixonada por ele desde "O Feitiço de Áquila" (1985), mas, temos de concordar que sua presença na obra faz toda a diferença: Hauer carrega seu androide de uma "humanidade" desoladora, ele traz uma gana de vida, um respeito pela experiência de estar vivo que destrói até o mais peludo dos corações; e o monólogo final do personagem - reescrito pelo próprio ator - é um dos mais poderosos, marcantes e tocantes já feitos no cinema. O elenco traz, ainda, Edward James Olmos como Gaff, Willian Sanderson como J. F. Sebastian, Brion James como Leon, Joe Turkell como Dr. Tyrell e Joana Cassidy como Zhora. É o seguinte: se você ainda não viu o filme, ele é obrigatório para qualquer pessoa que diga gostar de cinema. A obra é perfeita, irretocável, deliciosa, comovente e instigante. Veja. Imediatamente.

PS - Veja o corte do diretor, pelamor.

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