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  • hikafigueiredo

"Céline e Julie Vão de Barco", de Jacques Rivette, 1974

Filme do dia (346/2021) - "Céline e Julie Vão de Barco", de Jacques Rivette, 1974 - A bibliotecária Julie (Dominique Labourier) e a mágica Céline (Juliet Berto) conhecem-se e se tornam íntimas, dividindo seu apartamento e as histórias fantásticas que habitam sua imaginação.





Festejadíssimo por ser um dos críticos do célebre Cahiers du Cinéma, Jacques Rivette foi um diretor marcado por obras criativas, ousadas e polêmicas pelos mais diversos motivos. Neste filme, em particular, Rivette extrapola completamente o cinema convencional, entregando uma obra fantasiosa e bastante interpretativa. A história começa em um parque, quando a personagem Julie passa a seguir a desconhecida Céline para lhe entregar alguns pertences que ela deixara cair pelo caminho. Qualquer normalidade da história termina aí. Após o primeiro contato entre as duas personagens - que só acontecerá depois de passados 24 minutos de filme - a narrativa toma rumos bastante surpreendentes e envereda por histórias paralelas totalmente destacadas da principal. A narrativa pode ser dividida em duas partes: a primeira lida com algumas experiências das próprias personagens, cujas vidas começam a "se embolar", mas, aqui, ainda mantemos alguma relação com a realidade; a segunda, completamente, descolada da narrativa inicial, torna-se uma história dentro da história e se refere à imaginação delirante de Céline e Julie, que passam a compartilhar um mesmo delírio, ainda que separadamente. A liberdade com que o diretor cria sua obra, tornando-a completamente imprevisível, com certeza tem seus méritos - é realmente um filme libertário, que não segue regras de nenhum tipo e deixa a imaginação correr solta. Mas confesso que não é filme para mim. Muito embora eu admire a criatividade e desprendimento do diretor, eu não consigo me envolver com qualquer obra que se exceda a uma mínima realidade - isso vale, por exemplo, para os filmes surrealistas, que, por mais que eu me esforce e abra minha cabeça, eu não consigo me ligar àquelas experiências. Aqui, temos um agravante - além dos caminhos fantasiosos assumidos pela narrativa, o filme tem 3h13min de duração, o que me deixou completamente exasperada, em especial por eu não conseguir "entrar" na viagem. A narrativa, evidentemente, é completamente não-linear, em ritmo moderado, mas que ganha bastante agilidade no terço final. A atmosfera é caótica e mirabolante, acho que nem chá de cogumelo daria tanto "barato". O que não falta são interpretações para o conteúdo do filme, que sugerem desde um estudo dos limites entre cinema e teatro até a suspeita de que as personagens sejam uma representação dicotômica de uma única pessoa. Eu nem vou arriscar palpite, pois a obra não me falou nada à alma e eu tive de lutar muito para terminá-la. Visualmente, o filme até que foi comportado e se manteve dentro de um padrão "normalzinho". Gostei do uso das cores e da direção de arte em geral, aproveitando bem a estética setentista. O filme é bastante econômico no que tange à trilha sonora - a música incidental é praticamente inexistente e mesmo a diegética é bem limitada. O elenco traz Juliet Berto como Céline e Dominique Labourier como Julie - como o filme é bem esquisito, a interpretação das duas segue a mesma linha: elas, muitas vezes, carregam nas expressões faciais, mostram-se histriônicas, teatrais, mas isso não causa qualquer estranhamento pela própria natureza da obra. Já ficou evidente que eu não curti muito o filme, né, mesmo vendo algumas qualidades na obra - ela não é para mim. Por entender que se trata de uma limitação minha, vou me abster de recomendá-la ou repudiá-la.

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