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  • hikafigueiredo

“Café da Manhã em Plutão”, de Neil Jordan, 2005

Filme do dia (133/2023) – “Café da Manhã em Plutão”, de Neil Jordan, 2005 – Irlanda, anos 60/70. Patrick Braden (Cillian Murphy) é abandonado, ao nascer, defronte à sacristia onde o Padre Liam (Liam Neeson) exerce suas funções. Ele é adotado por uma família que cedo o rejeita por perceber seu jeito afeminado. Na juventude, Patrick parte para Londres em busca da mãe que o renegara e, na cidade grande, assume sua transexualidade, apresentando-se como “Kitten”. O acirramento da tensão entre o governo inglês e o grupo IRA trará ainda mais problemas à jovem trasvesti.





Esse delicioso e sensível filme, baseado na obra homônima de Patrick McCabe, vai conseguir aliar crítica social e de costumes em um único e conciso corpo. As questões sociais vêm no bojo da discussão política que contrapõe o governo do Reino Unido e o grupo radical IRA, num momento em que o último passou a fazer uso de terrorismo como arma política. A crítica de costumes, por sua vez, vai enfatizar o processo de formação de identidade da protagonista “Kitten”, que, nascida com o gênero biológico masculino, cedo revela uma identidade de gênero diferente. A rejeição de sua família adotiva não cala a natureza de “Kitten”, que larga sua cidade natal e vai para Londres, onde assume-se travesti/transexual. Podemos considerar que o cerne da obra é justamente a questão da identidade, seja ela de natureza pátria, política ou de gênero. Ainda que trate de temas pesados e que traga, ao longo da narrativa, cenas perturbadoras, que vão de atentados terroristas a agressões físicas em decorrência da natureza da protagonista, a obra traz uma leveza ímpar, que é um reflexo da posição assumida por “Kitten” – a personagem, que poderia carregar toda a dor de ter sido renegada ao nascer pela mãe biológica e na tenra infância pela adotiva, por só ser aceita por outros excluídos, por ser tratada com repulsa pela sociedade, nega-se a assumir essa visão de mundo negativa, despe-se de qualquer amargor e opta por viver em um universo de glitter cor-de-rosa, rindo de suas desgraças e feliz por sua essência e suas escolhas. É humanamente impossível não se afeiçoar a “Kitten”, pois ela é, a um só tempo, inocente, doce, leal, justa, determinada e resiliente, ainda que deixe um espacinho em si para o mais puro deboche (amei!). A narrativa é parcialmente não-linear – há uma pequena introdução no presente, mas logo voltamos à época do nascimento de “Kitten” e daí em diante seguimos em tempo cronológico, dividido em curtos “capítulos”. O ritmo é bem marcado e constante. A atmosfera é confortável – a forma da protagonista encarar seus problemas retira qualquer peso da história. Gostei demais do desenho de produção de época, particularmente das cenas na década de 70 – o visual de “Kitten” é puro glamour e a aparência andrógina de Cillian Murphy colabora para o sucesso da personagem. A trilha musical bem anos 70 consegue ser tão deliciosa quanto o filme, com destaque para as músicas “Sugar Baby Love” na abertura da obra e “Breakfast on Pluto”. Há espaço para alguma fantasia – a dupla de passarinhos que serve como narradores pontuais tem lá seu humor. O elenco traz nomes famosos: Liam Neeson como padre Liam, Stephen Rea como o mágico, Brendan Gleeson como John Joe, Ruth Negga como Charlie (adoro essa atriz, ela é fantástica!) e até o cantor/compositor Bryan Ferry como Mr. String, mas o brilho mesmo é de Cillian Murphy, sensacional como Patrick “Kitten” Braden!!! Confesso que estou apaixonada por “Kitten”!!!! Em tempo: ainda que compreenda a importância da representatividade e entendendo que caberia no papel uma atriz verdadeiramente trans como ocorreu com Daniela Vega em “Uma Mulher Fantástica”(2017), acredito que, à época do filme, essa discussão ainda não era colocada; também acho que, pela natureza do ofício do ator/atriz, é possível a interpretação “daquilo que não se é” – claro que repudio a preferência pelos “socialmente aceitos” em contraposição à parcela da população historicamente excluída, sejam negros, gays, estrangeiros, trans, etc, mas não consigo rejeitar um trabalho tão bem realizado como a interpretação de Cillian Murphy como “Kitten”, até porque esta é a essência do trabalho do ator/atriz, isto é, interpretar “o outro”!!! Cillian foi indicado ao Globo de Ouro (2006) de Melhor Ator em Comédia/Musical por sua atuação, bem merecidamente. Eu gostei demais do filme – inclusive por ter uma temática pela qual tenho carinho – e recomendo.

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