• hikafigueiredo

"Cléo das 5 às 7", de Agnés Varda, 1962

Filme do dia (181/2020) - "Cléo das 5 às 7", de Agnés Varda, 1962 - Cléo (Corinne Marchand) está ansiosa. Aguarda o resultado de um exame que dirá se ela sofre de uma grave doença. O resultado lhe será revelado às 19 hs. Ela tem duas horas para aguardar.





Vou confessar um pecado. Jamais havia assistido a qualquer filme de Agnés Varda. Consciente dessa falha no currículo de cinéfila, adquiri um box com quatro obras da diretora. E fui surpreendida, logo no primeiro filme, com uma obra potente, rica e bastante diferente. O filme discorre sobre a angústia e a necessidade de ter de conviver por algumas horas com essa angústia. Cléo, originalmente, é cheia de vida, vaidosa de sua beleza, orgulhosa de seu talento como cantora. Mas a situação de ter de esperar pelo resultado do exame a consome. Ela tenta se distrair zanzando por Paris, visitando uma amiga, passeando em um parque. Lampejos de alegria passam por seu semblante, mas logo a apreensão toma lugar de seu sorriso. Seu rosto denota preocupação e angústia, mas a vida continua a acontecer pelas ruas de Paris. Há, na obra, um confronto direto entre a dor de Cléo e a vida que segue alheia aos problemas da personagem. A obra de Varda é surpreendente. A câmera da diretora não pára um só segundo - são panorâmicas e travellings diversos, uns após os outros. Quando, porventura, a câmera pára, o movimento da cena toma lugar do movimento da câmera. Certo é que toda essa movimentação incansável remete à vida, o que confronta totalmente com o estado de espírito da personagem. Ainda que o espectador capte a angústia de Cléo - e isso é bem palpável na obra - toda essa vida que envolve a personagem faz com que o filme não se torne um tormento: ele é uma angústia, mas não uma dor intolerável. Adorei a representatividade feminina proporcionada pela diretora - muitas mulheres em cena!!! O roteiro é impecável, sem furos, a narrativa segue tempo linear, cronológico e por pouco não acontece em tempo real, e o ritmo é bastante intenso para o tema proposto (mas isso não é problema algum, para mim o timing foi ideal). A fotografia é P&B, suave, pouco contrastada. A maior parte das locações são externas e as ruas de Paris são utilizadas largamente. Como já mencionado, há uma movimentação constante nas cenas, praticamente não há câmeras fixas. A trilha sonora se aproveita bastante das músicas diegéticas (o que está tocando em cena e que os personagens escutam). Corinne Marchand está perfeita como a atormentada Cléo, alternando diferentes expressões corporais e faciais que pontuam os momentos em que a personagem se esquece por um tempo de seu problema e consegue relaxar, com outros onde Cléo se consome de angústia. Dominique Dravay também está muito bem como a acompanhante Angèle, que tenta tirar um pouco do peso da protagonista. Antoine Bourseiller dá via a Antoine e traz certa "cor" à história, quando a hora da verdade se aproxima. No elenco, ainda, Michel Legrand como Bob, o pianista; Dorothée Blanc como a amiga Dorothée. Destaques: a primeira cena, da cartomante; a cena em que Cléo canta uma música deprimente e chora; a cena em que Cléo sente que todo mundo está olhando para ela na rua; as cenas finais, incluindo a revelação anticlimática (o que para mim foi quase um choque). Eu achei o filme incrível, ele me tomou completamente. Recomendo demais!!!!

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