• hikafigueiredo

"Cría Cuervos", de Carlos Saura, 1976

Filme do dia (227/2016) - "Cría Cuervos", de Carlos Saura, 1976 - Ana (Ana Torrent) é uma menina de 9 anos que é assumida pela tia, junto com suas duas irmãs, após a morte dos pais. Vinte anos depois, Ana (Geraldine Chaplin), adulta, relembra daquele período.





Nesta fantástica obra de Carlos Saura, temos uma discussão bastante rica sobre a infância, o luto e as memórias. O filme deixa de lado a ideia da infância como um período romântico, idílico e feliz, mostrando-a como um período conturbado, cheio de medos e incertezas, onde realidade, sonhos e imaginação convivem tranquilamente na tentativa de se compreender a realidade. A pequena Ana é uma menina circunspecta, observadora, e crê que tem o poder de matar seus desafetos. Após o falecimento de sua mãe por uma doença não revelada, Ana vê, em seu pai ausente, infiel e frio, o responsável pelo sofrimento e consequente morte da mãe. Em pouco tempo, seu pai também falece e Ana passa a creditar esse fato ao seu desejo oculto pela morte do pai. Crente que é dona do destino das pessoas, Ana tem de trabalhar, em seu íntimo, a morte de seus pais e sua responsabilidade quanto a isso. Outro ponto fortemente discutido na obra, é a memória e como ela é construída - há um diálogo contante entre a pequena Ana e a Ana adulta, assim como há referência constante às lembranças através de fotografias e anotações. A memória é mostrada como uma construção pessoal, influenciada não apenas pelos acontecimentos reais, mas, muito mais, pelas sensações, crenças, afetos, receios e incertezas. No filme, o real e o irreal convivem lado a lado e, para a jovem Ana, são igualmente factíveis e "sólidos". Por fim, a questão do luto e de como ele é trabalhado, digerido, aceito, também é apresentada. Há, ainda, forte referência ao período franquista na Espanha, com inúmeras menções àquela ditadura, através, principalmente, do personagem do pai, mostrado como oficial franquista (na superfície, o pai demonstra austeridade, rigidez moral, correção, mas, no íntimo, era infiel, desleal, imoral... exatamente como o regime autoritário em questão). O filme é hábil em criar um clima pesado - fotografia escura, ambientação, sonoridade "abafada" - tudo contribui para uma sensação de luto e pesar. A narrativa mistura passado e presente, real e imaginário, tudo coabita em perfeita sintonia, não se perdendo graças à direção segura de Carlos Saura. As atrizes que fazem Ana - Ana Torrent e Geraldine Chaplin (que também interpreta a mãe de Ana) - são fantásticas. O que são as expressões de vazio, temor, desprezo e decepção da pequena Ana Torrent , ela é uma montanha!!!!! Geraldine Chaplin, por sua vez, consegue transmitir delicadeza, submissão, medo, insegurança, quando interpreta a mãe da menina e, ao mesmo tempo, força, decisão, segurança, quando faz a Ana adulta - que atriz!!!! O filme é incrível, um filmaço!!!! Recomendo bastante!

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