• hikafigueiredo

"Desafio do Além", de Robert Wise, 1963

Filme do dia (40/2022) - "Desafio do Além", de Robert Wise, 1963 - Um pesquisador de eventos sobrenaturais, o Dr. John Markway (Richard Johnson) recruta duas mulheres para participarem de um experimento em uma suposta casa mal-assombrada - a sensitiva Theodora (Claire Bloom) e a frágil Eleanor (Julie Harris), que, no passado, vivenciara uma experiência paranormal. Acompanhados pelo herdeiro da casa ,Luke Sanderson (Russ Tamblyn), eles se instalam na mansão Hill House, na Nova Inglaterra. Não tardará para que todos sintam os efeitos deletérios do local.





Considerada por muitos um dos mais aterrorizantes filmes de terror já realizados, a obra figura, junto com o impecável "Os Inocentes" (1961), no meu panteão de filmes de terror obrigatórios, ocupando a posição de predileta no gênero. Baseado no romance "A Assombração da Casa da Colina", de Shirley Jackson, o filme diverge um pouco da obra bibliográfica por dar maior destaque à condição psicológica instável da personagem Eleanor do que aos acontecimentos sobrenaturais que ali ocorrem, equilibrando-se com competência entre a imaginação da protagonista e os eventos extraordinários que, inegavelmente, acontecem. A obra insere-se no chamado "terror psicológico" - aquele tipo de filme em que a nossa ideação trabalha incansavelmente no sentido de formar e consolidar um sentimento de apreensão, de medo, mesmo que, na tela, pouco, ou até mesmo nada, aconteça. Em outras palavras, é um filme que usa do nosso próprio imaginário para criar a atmosfera de terror - e, no caso, faz isso com impressionante habilidade. Na história, temos, de um lado, o imóvel com fama de mal-assombrado, o que será posto à prova pela equipe que, gradativamente, perceberá algo de nefasto no ambiente, muito embora não consiga, muitas vezes, discernir exatamente o quê; e, de outro, o frágil estado psicológico da personagem Eleanor, que se encontra à beira de um colapso, sendo solapado continuamente por pensamentos intrusivos e insistentes. Da confluência dos dois turnos, temos, como resultado, a percepção de que qualquer energia maléfica inexplicável do local se aproveita da vulnerabilidade da protagonista para atingir a todos. A narrativa é linear, contando com um brevíssimo prólogo que relata o histórico de mortes e loucura da mansão, bem como um epílogo ainda mais curto como "fechamento" da obra. O ritmo do filme é lento, construindo, pacientemente, o "climão" de apreensão e terror já mencionados. A obra não conta com qualquer cena de "jumpscare" - você, em momento algum, será surpreendido com sustos de qualquer espécie; o medo, aqui, é algo mais profundo e estável, algo que se consolida nas suas entranhas e fica ali, constante, como um ruído incômodo. Também não espere nenhuma cena com apelo gore - pelo contrário, não há sequer uma cena de sangue na trama. Tecnicamente, o filme é absolutamente impecável. A fotografia P&B ultra recortada, com claros e escuros muito demarcados, faz uso de planos muito criativos e conta com uma câmera nervosa, em quase constante movimento, que muitas vezes assume o ponto de vista dos personagens, em especial de Eleanor e, para surpresa e certo incômodo do espectador, da própria casa - sim, existem inúmeros planos em que nossa intuição alerta de que se tratam do ponto de vista do imóvel, quase sempre em contra-plongée (de cima para baixo), assumindo uma posição de poder e domínio quanto aos seres humanos ali presentes; o contrário também acontece, ou seja, a visão em plongée (de baixo para cima) dos personagens para o ambiente, assumindo uma posição de sujeição e passividade em relação à maligna mansão. A ambientação foi construída para dar uma profunda sensação de claustrofobia - com muitas cenas internas, muitas das quais mostrando o limite do teto e tendo os espaços tomados por uma decoração exagerada e rococó, com muitos móveis, quadros e estátuas de feições arrepiantes, o ambiente é agressivo e inibidor. A edição de som também colabora na formação de tensão: inúmeras inserções sonoras mostram-se inexplicáveis - aliás, os personagens ouvem muito mais coisas assustadoras do que efetivamente veem essas coisas! Também acompanhamos, com frequência, os pensamentos confusos e desconexos de Eleanor, através de sua narrativa em "off" representando sua "voz interior". O elenco, por sua vez, traz Julie Harris maravilhosa como a instável Eleanor, assumindo, em definitivo, o protagonismo da obra. Reza a lenda que a atriz estava passando por uma profunda depressão, o que colaborou, em muito, com a construção da conflituosa personagem - Harris nos entrega uma Eleanor frágil, assustada, que responde com fúria a qualquer provocação, para, em seguida, despedaçar-se em arrependimento. No contraponto de Eleanor, temos o personagem Dr. Markway, interpretado por Richard Johnson. O personagem apresenta-se sempre muito confiante e o ator o interpreta com segurança (impossível não perceber certa semelhança do ator com Clark Gable). Adorável, ainda, é a interpretação de Claire Bloom da personagem Theodora - provocativa, irônica, Theodora desenvolve uma relação de "amor e ódio" por Eleanor, muitas vezes acolhendo-a, mas, também, provocando-a em muitas situações. O elenco ainda conta com Russ Tamblyn como o jovem herdeiro Luke, numa interpretação um pouco amorfa; e Lois Maxwell como Grace. Robert Wise foi indicado para o Prêmio Globo de Ouro (1964) na categoria Melhor Diretor, sendo desbancado por Elia Kazan. Eu sou suspeitíssima para falar dessa obra, pois a adoro visceralmente - destaco a "cena da mão", para mim a mais arrepiante de todo o cinema de terror de todos os tempos, bem como a "cena da escada", eximiamente construída para causar tensão. Olha... filmaço de terror psicológico!!!! Obrigatório!!! PS - O filme ganhou uma refilmagem em 1999, com o mesmíssimo título em inglês ("The Hauting") - fuja, sem olhar para trás... mais aterrador que a casa mal-assombrada em questão...

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