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  • hikafigueiredo

“Dia dos Mortos”, de George A. Romero, 1985

Filme do dia (14/2024) – “Dia dos Mortos”, de George A. Romero, 1985 – A Terra está tomada por zumbis. Um pequeno grupo de cientistas e militares, no entanto, resiste em uma base subterrânea em algum local da Flórida. Os ânimos estão acirrados e os militares discordam do trabalho dos cientistas, os quais usam os mortos-vivos em suas experiências em busca do controle e cura dos zumbis. A tensão crescente trará consequências assombrosas.




 

Um desavisado que se deparasse com este filme certamente pensaria tratar-se de apenas mais um filme de apocalipse zumbi como tantos outros por aí. Ledo engano. O diretor George A. Romero jamais realizou “simples filmes sobre mortos-vivos” – suas obras são, sempre, alegorias e críticas pontuais acerca de questões específicas da sociedade. Assim, se em “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968) a crítica está direcionada à política do medo instaurada durante a Guerra Fria e resvala em questões raciais, em “Despertar dos Mortos” (1978) o foco é o consumismo e os condicionamentos sociais, e em “Terra dos Mortos” (2005) a mira volta-se para as desigualdades sociais do capitalismo, aqui temos uma clara crítica ao militarismo, ao mau uso da ciência, à dificuldade de comunicação entre os diferentes grupos sociais e a completa ausência de solidariedade tão comum aos seres humanos. Na história, acompanhamos um grupo de sobreviventes ao apocalipse zumbi, os quais se encontram abrigados em uma base militar subterrânea na Flórida. Eventuais expedições em busca de outros sobreviventes acabam em fracasso, isso quando não resultam em mortes dentre o próprio grupo. Gradativamente, a tensão aumenta e os militares, comandados por um capitão autoritário e sanguinário, passam a agir com maior truculência contra os civis, dentre os quais os cientistas. Cabe ressaltar que os militares são retratados, no filme, como homens violentos, irracionais, misóginos, preconceituosos e covardes – nenhum deles se salva, todos são mostrados como brutamontes desprezíveis. Os cientistas, por sua vez, são expostos, em parte, como pessoas fora da realidade, sonhadores, obcecados e fechados em seu mundo. Entre todos, a quase total incapacidade de se comunicar, de se relacionar e de ter empatia. A narrativa é linear, em ritmo moderado a marcado e crescente. A atmosfera é claustrofóbica, tensa e se aproxima de um pesadelo. Como boa parte dos filmes de George A. Romero, a qualidade técnica não é aqueeeeele primor – o que as obras têm de críticas, têm, também, de formalmente toscas. A fotografia colorida prioriza os contrastes de claro e escuro, ajudando a “pesar” o clima, mas não podemos dizer que traz planos ousados ou posicionamentos de câmera sofisticados – ao contrário, tudo é bem básico. Existe, claro, um maior cuidado com o desenho de produção, afinal são dezenas, quiçá centenas, de figurantes caracterizados de zumbis, um diferente do outro. Ressalto o trabalho de maquiagem e os efeitos especiais – os últimos, se não são excepcionais como os de hoje, com certeza fizeram bonito na época: são diversas as cenas de corpos sendo desmembrados e devorados pelos mortos-vivos, não tão “fakes” que causem riso, tampouco tão realistas que causem aflição. Mas o mais risível da obra são as interpretações canhestras de noventa e nove por cento do elenco – ê, elenco e direção de atores ruins, misericórdia! A protagonista é a Dra. Sarah Bowman, interpretada por uma péssima Lori Cardille – apesar da interpretação duvidosa, tenho que concordar que a personagem não ajuda e tem a consistência de uma calda de pudim. Como Capitão Rhodes, o igualmente ruim Joe Pilato. Como Miguel, Anthony Dileo Júnior (que voz gutural estranha que esse ator tinha!). Os que se salvam são Terry Alexander como John e Jarlath Conroy como McDermott. Aliás, como em “A Noite dos Mortos-Vivos”, o único personagem equilibrado, correto e com virtudes evidentes é o personagem negro (representatividade a gente vê por aqui!). Apesar das tosquices, o filme me ganha pelo fundo crítico (se bem que este é o mais fraco da quadrilogia). Aconselho ver todos e buscar a leitura das entrelinhas.

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