• hikafigueiredo

"Dois Olhos Satânicos", de George A. Romero e Dario Argento, 1990

Filme do dia (87/2022) - "Dois Olhos Satânicos", de George A. Romero e Dario Argento, 1990 - Em "O Estranho Caso do Senhor Valdemar", a esposa de um milionário idoso mantém o marido moribundo sob hipnose para que ele lhe transfira sua fortuna; em "O Gato Preto", um fotógrafo se incomoda com a gata preta que sua namorada traz para casa e resolve dar cabo do animal.





Dois diretores do cinema de terror se juntam para fazer um filme baseado em dois contos do autor Edgar Allan Poe. O primeiro trecho, baseado no conto "O Estranho Caso do Senhor Valdemar", dirigido por George A. Romero, trabalha a ideia de outros planos após a morte ao acompanhar a história da jovem esposa de um milionário gravemente enfermo que, com ajuda de seu amante, mantém o marido hipnotizado para, assim, tomar posse de sua fortuna. No entanto, o plano não sai conforme o esperado, fazendo com que o casal enfrente forças do além. Achei interessante o fato da história não se apoiar em um maniqueísmo empobrecedor - os personagens têm nuances e não são intrinsicamente maus ou bons, revelando, aqui e ali, alguma empatia pelo moribundo milionário que, por sua vez, também não é nenhum santo. Também gostei da transferência da história para os dias "atuais" sem que sua essência se perdesse. A narrativa é linear, em um ritmo marcado e constante. A atmosfera é bem sombria, bastante adequada à história. No elenco, Adrienne Barbeau como a esposa Jéssica, Ramy Zada como Robert e Bingo O'Malley como Sr. Valdemar - okay, ninguém aqui é intérprete merecedor de Oscar, mas também não chegam a atrapalhar o bom andamento da obra. O segundo momento, baseado no conto "O Gato Preto", dirigido por Dario Argento, traz inúmeras referências a Hitchcock (o personagem fotógrafo que nos remete à "Janela Indiscreta", 1954, a água manchada de sangue que escoa pelo ralo, referência a "Psicose", 1960, dentre outros) e ao próprio Edgar Allan Poe (a morte pelo pêndulo de "O Poço e o Pêndulo", o nome do fotógrafo que nos remete a "A Queda da Casa de Usher", o nome "Eleonora", do conto homônimo, etc) e chega a ser divertido "caçar" tais referências ao longo da obra. Como em outras versões cinematográficas do conto, não consegui ver a representação da culpa na figura do gato, algo bem mais perceptível na obra literária, mas, em comparação ao filme "Gato Negro" (1981), o protagonismo do ser humano (no caso, o fotógrafo) aproxima bem mais o filme do conto. Como no primeiro bloco, a história é transferida para a atualidade. A fotografia da obra chamou a minha atenção por, diversas vezes, a câmera assumir o ponto de vista do animal, trazendo ângulos diferentes e velocidade ao ritmo da narrativa. O elenco traz um sempre - SEMPRE! - ótimo Harvey Keitel como o fotógrafo Usher, um personagem com um espírito profundamente maléfico. Madeleine Potter interpreta a namorada Annabel, bastante bem como a doce figura da violinista. Achei dispensável os "efeitos especiais" do fim da história, desnecessários. Por outro lado, fiquei feliz com a informação de que os animais usados na filmagem não tenham sofrido qualquer tipo de abuso ou maus tratos. O filme me agradou bastante, achei as duas histórias bem equilibradas, ricas, e ambas conseguiram captar muito bem o espírito de Poe. Recomendo!

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