• hikafigueiredo

"Eles Não Usam Black-Tie", de Leon Hirszman, 1981

Filme do dia (205/2020) - "Eles Não Usam Black-Tie", de Leon Hirszman, 1981 - Tião (Carlos Alberto Riccelli) é um operário que acaba de saber que Maria (Bete Mendes), sua namorada, está grávida. Ele sonha em proporcionar sustento e conforto à companheira, mas sente a tensão na fábrica em que trabalha por conta de uma ameaça de greve, em parte encabeçada por seu pai Otávio (Gianfrancesco Guarnieri), um conhecido sindicalista.





O filme é a versão cinematográfica da peça homônima criada em 1958 por Gianfrancesco Guarnieri e trata em linhas gerais, da luta de classes, do proletariado fabril, dos movimentos sindicais, da violência policial e da consciência de classe. Há, na história, um conflito entre aqueles que possuem consciência de seu papel no sistema capitalista e que se unem buscando melhores salários e condições de trabalho para todos os seus pares e aqueles que agem segundo, unicamente, seus interesses pessoais. O filme é ótimo, muito embora um pouco datado - sabemos que hoje em dia os movimentos sindicais não funcionam da mesma forma que há quarenta, cinquenta anos atrás. Ainda que tenha um fortíssimo viés político, o filme é suficientemente bem construído para não resvalar em algo por demais panfletário, o que esvaziaria seu conteúdo. A narrativa segue tempo linear e cronológico, abarcando apenas alguns poucos dias da vida dos personagens. O ritmo é bem marcado e crescente. A ambientação do bairro popular e periférico é extremamente bem feita. A obra tem ótimos diálogos, mas, por vezes, conseguimos "enxergar" a peça por detrás do filme. As interpretações são excepcionais, o que não é surpreendente face ao elenco de profissionais competentes e respeitados: Carlos Alberto Riccielli interpreta um Tião com evidente ilusão acerca de seu papel social; ele é o perfeito "pobre de direita", aquele indivíduo que conscientemente compactua com seus exploradores com vistas a algum benefício pessoal; Gianfrancesco Guarnieri interpreta Otávio, um operário sindicalizado que tem, bem claro, qual é o seu papel no sistema capitalista; ele é íntegro e apaixonado na sua defesa pelas causas proletárias; Bete Mendes faz uma Maria delicada, porém muito consciente e convicta de seus valores (adorei a personagem e o trabalho da atriz; Fernanda Montenegro, monstruosa como de costume, interpreta Romana, esposa de Otávio e mãe de Tião e surge como o ponto de equilíbrio da família; no elenco, ainda, Milton Gonçalves, Francisco Milani, Lélia Abramo, dentre outros. Destaque para toda a cena da greve e para a poética cena final da escolha dos feijões (que era a única cena que eu me lembrava, já tendo visto o filme lá pela década de 90) A obra é maravilhosa e é parte da cinematografia brasileira essencial e obrigatória!!!! Corre para assistir!

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