• hikafigueiredo

"Era uma vez um Pai", de Yasujiro Ozu, 1942

Filme do dia (236/2018) - "Era uma vez um Pai", de Yasujiro Ozu, 1942 - O professor viúvo Horikawa (Chishu Ryu) desiste de lecionar após uma tragédia com um de seus alunos. Sem opção, ruma para Tokyo, único local que proporcionaria trabalho com remuneração suficiente para pagar bons colégios para seu único filho, Ryohei. Visando a educação do filho, Horikawa opta por matriculá-lo em um colégio interno, a muitos quilômetros de Tokyo, separando, assim, pai e filho.





Nesta obra, Ozu foca sua atenção na específica relação entre pai e filho. Aqui, retrata-se a responsabilidade paterna e o sacrifício necessário para garantir um futuro para o filho. Temos que considerar, obviamente, que se trata de um filme bastante inserido em seu tempo e sob a ótica da cultura japonesa, então tudo reveste-se de comedimento, discrição e contenção de emoções - achei difícil me despir de minha condição de mulher latina de outra época, muito mais afeita a demonstrar as emoções e revelar pensamentos e intenções, além de ter uma visão completamente oposta do que seria uma criação de filho responsável, baseada numa construção afetiva muito mais do que numa construção conteudística e normativa. Fazendo um parenteses, não posso deixar de destacar uma questão que me saltou aos olhos na obra: a reprodução do machismo que oprime tanto mulheres quanto os próprios homens: em uma passagem, o pai repreende o filho por chorar, e diz que não é adequado para um homem chorar, reprimindo, assim, a expressão de emoções que seria adequada apenas para mulheres, jamais para os homens - nada mais cruel que desumanizar uma pessoa retirando dela sua capacidade de sentir e expressar esses sentimentos, tornando-a apenas um invólucro de carne!!! Outro ponto que me incomodou bastante na obra - e isso é algo que a cultura japonesa traz até os dias atuais - é a supervalorização do trabalho em detrimento da vida pessoal, afetiva e familiar. O que muitos veriam como uma lição de vida e uma virtude, eu vejo apenas como um sacrifício inútil - não que as pessoas devam ser displicentes com a vida profissional, mas há que se equilibrar esse ponto com o resto da existência pessoal, deixando espaço para as relações afetivas, a família e o lazer/prazer. O filme traz essa responsabilidade para com o trabalho de uma forma extremamente arraigada no personagem pai, a ponto dele abrir mão do convívio com o filho - seu único afeto real e constante - para que o último não desvalorize seu trabalho. Formalmente, o filme segue o tempo cronológico, com um salto temporal entre dois momentos daquela família. O ritmo, como usual, é extremamente lento, retratando questões íntimas e cotidianas dos personagens e não condições ou acontecimentos excepcionais destes, característica primordial do diretor. Uma curiosidade: há uma única personagem feminina na história e sua importância é praticamente secundária, até porque aparece por pouquíssimos minutos. É, assim, um filme que trabalha a questão familiar pela ótica masculina - algo muito interessante. Uma tristeza: a cópia que gerou o DVD encontra-se em péssimo estado de conservação, e não são poucas as passagens bastante estragadas pelo tempo. O filme é muito bom, mas exige paciência para quem prefere um ritmo não tão lento.

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