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  • hikafigueiredo

“Está Chovendo em Casa”, de Paloma Sermon-Daï, 2023

Filme do dia (145/2023) “Está Chovendo em Casa”, de Paloma Sermon-Daï, 2023 – Os irmãos Purdey (Purdey Lombet) e Makenzy (makenzy Lombet), de 17 e 15 anos, respectivamente, vivem em uma pequena cidade do litoral francês. Negligenciados pela mãe, os irmãos precisam assumir responsabilidades quando aquela abandona repentinamente o lar.





Sensível e extremamente sutil, o filme é um pequeno recorte de uma família disfuncional e fragmentada. Aquela que poderia ser a força agregadora da família - a mãe -, é ausente e negligencia os filhos, muito embora os trate com algum carinho. Os irmãos – a menina Purdey e o rapaz Makenzy – cedo percebem que terão de assumir as rédeas de suas vidas, pois só poderão contar consigo mesmos. A obra acompanha alguns dias (talvez semanas) dos irmãos, retratando os esforços de Purdey, prestes a completar dezoito anos, para trazer dinheiro para casa e conseguir manter o irmão, de quinze anos. O tom do filme é naturalista e jamais apela para o melodrama – os jovens, inclusive, não demonstram qualquer sofrimento ou grande incômodo por viverem de forma tão insegura, acostumados, certamente, com aquela situação. Enquanto se relacionam de uma maneira quase defensiva com o mundo e a sociedade – diversas são as cenas em que Purdey e Makenzy são reativos com terceiros, tratando amigos e conhecidos com certo desprezo e, por que não dizer, agressividade -, entre eles se tratam de maneira afetuosa e confiante, deixando evidente que são o porto seguro um do outro. A obra retrata, ainda, o momento em que os jovens adentram ao universo adulto, com todas as responsabilidades que lhe cabem, perdendo, assim, certa inocência e leveza da juventude. A narrativa é linear, em ritmo muito lento. A atmosfera é de desilusão e desânimo – a clara falta de perspectivas dos dois irmãos afeta o espectador mais sensível, muito embora o jeito seco dos jovens não colabore muito pela empatia. É importante frisar que a obra não traz quase nenhuma ação, sendo um filme do cotidiano, o que pode gerar alguma frustração no espectador acostumado com o cinema hollywoodiano e seu ritmo alucinante. A metáfora da janela que vaza a água da chuva e dá nome ao filme – e que nos remete, simbolicamente, à disruptura, ao esfacelamento daquela unidade familiar – me soou óbvia, bem como a tentativa vã do jovem Makenzy em consertá-la. Formalmente é um filme belo e delicado. A fotografia opta por planos quase sempre fechados, aproximando-se muito dos rostos dos irmãos, muito recorte de luz e sombra e tons quentes – tudo colabora para uma sensação de reconhecimento e intimidade do público para com os irmãos. Há a quase total ausência de trilha musical – é um filme muito silencioso, um silêncio que cresce, incômodo, mas extremamente real. Como bom filme europeu, temos muito falatório, entremeado de longos silêncios, apenas quebrados pelos sons naturais (portas que rangem, coisas que “batem”, etc). A interpretação dos dois jovens – irmãos no mundo real e que carregam seus nomes reais para o filme – é muito naturalista e cheia de sutileza -não há as caras e bocas que fariam sucesso no cinema estadunidense. Confesso que a visão daquela existência tão pouco salutar me incomodou – eles fumam demais, eles consomem drogas, eles comem mal, tudo isso me causou uma certa angústia. A obra recebeu o Prêmio do Juri em Cannes (2023). Olha... este é um filme com méritos, principalmente pela direção segura e olhar delicado da diretora, mas admito que o cinema de cotidiano me cansa um pouco – às vezes é como olhar uma árvore crescendo... em tempo real. Definitivamente não é filme para qualquer público, há que se estar acostumado com um ritmo muito lento e a pouquíssima ação. Para este tipo de público, recomendo muito; para o público geral, aconselho bom senso.

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