• hikafigueiredo

"Febre do Rato", de Cláudio Assis, 2011

Filme do dia (248/2017) - "Febre do Rato", de Cláudio Assis, 2011 - Em Recife, Zizo (Irandhir Santos) é um poeta inconformado que edita, com seus próprios meios, um pequeno jornal onde veicula suas poesias e sua rebeldia. A paixão não correspondida por Eneida (Nanda Costa) influenciará seu comportamento, mas não aplacará sua postura rebelde.





Mostrando um pouco da vida das camadas mais humildes de Recife, lugares e pessoas sem qualquer glamour, mas com uma poesia intrínseca que os envolve e define, a obra é deliciosamente poética e anárquica a um só tempo. Apesar de toda a sensibilidade que brota da obra, em especial nas palavras do poeta Zizo, tudo no filme é contundente, desconstruidor e subversivo, das ideias anarquistas propagadas às relações humanas fora de padrão, livres e libertadoras. A história, em si, é uma ode ao inconformismo ("as pessoas perderam a capacidade de espernear para as coisas mudarem"), à rebeldia, ao desejo de ruptura e mudança. O roteiro flui fácil, por vezes um pouco errático, com um ritmo agradável, mas sem um clímax muito bem definido. O desfecho me desagradou um pouco, esperava algo diferente (sem spoilers). Como qualquer filme do diretor, a poesia não aplaca o uso de gírias regionais e palavrões em profusão, o que pode ferir ouvidos mais sensíveis (e, possivelmente, hipócritas). Visualmente o filme é bárbaro - a fotografia P&B bem contrastada consegue imprimir beleza nas piores favelas e becos incrustados no mangue. O diretor foi muito feliz, também, na escolha dos planos e enquadramentos, com destaque para vários plongées absolutos (câmera a noventa graus do solo) - cenas lindas!!! Na trilha sonora, músicas com uma levada de "mangue beat", evidentemente regionais. Quanto ao elenco, só gente muito boa, começando pelo meu amorzinho Irandhir Santos, que interpreta Zizo com toda a loucura e irreverência necessárias ao personagem; Nanda Costa também está ótima como a quase ninfeta Eneida - rebelde em certos momentos, tímida em outros, contraditória o tempo todo e resistente às investidas de Zizo, apesar de seduzida por suas palavras; Matheus Nachtergaele nem precisava de maiores apresentações, o cara é excepcional sempre, em qualquer papel que assuma - e aqui não foi diferente, interpretando o personagem Pazinho; no elenco, ainda, Tânia Granussi como Vanessa, Juliano Cazarré como Boca, Mariana Nunes, Maria Gladys e Ângela Leal, todo mundo bem. O filme é poético, instigante e provocador, muitíssimo bem dirigido pelo ótimo Cláudio Assis, mas, na minha opinião, aquém do excepcional "Baixio das Bestas" (preciso rever 'Amarelo Manga", não lembro de nada da obra). Recomendo, vale a pena conferir.

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