• hikafigueiredo

"Força Maior", de Ruben Östlund, 2014

Filme do dia (360/2020) - "Força Maior", de Ruben Östlund, 2014 - Durante suas férias nos Alpes Franceses, um casal entra em crise, quando o marido tem uma reação surpreendente frente à família diante de um possível desastre.





O diretor, o mesmo do ótimo "The Square: A Arte da Discórdia" (2017), é hábil em criar situações desconfortáveis e reveladoras da natureza humana. Aqui, Östlund constrói uma narrativa que expõe a hipocrisia dentro das relações familiares e, mais especificamente, a masculinidade tóxica quando confrontada com uma realidade inesperada, além de discorrer acerca da questão expectativa versus realidade. A família do filme - um casal e seus dois filhos pequenos - faz cosplay de família de propaganda de margarina: feliz, realizada, ideal. A obra inicia com todos tirando as fotografias perfeitas das férias perfeitas e Ebba, a esposa, fazendo uma defesa apaixonada das relações tradicionais monogâmicas. Ocorre que, a certa altura, a família é confrontada com o inesperado - uma suposta avalanche de proporções desastrosas, a qual seria fatal para aqueles que estivessem em seu caminho caso se realizasse. O desastre natural não se efetiva, mas, a reação de Thomas, o marido, é suficiente para causar mal estar na esposa e nos filhos e começar a esfacelar a frágil imagem de família irretocável: diante do desmoronamento de neve, Thomas foge correndo, abandonando para trás a esposa e os filhos pequenos. Aaaah, filhote, daí em diante é só ladeira abaixo - e é o momento em que a masculinidade tóxica vem à tona, pois Thomas revela-se não apenas egoísta e desapegado dos seus, mas imaturo, machista e manipulador. Inicialmente Thomas nega o óbvio - que ele fugiu e deixou os filhos à própria sorte. Ele é incapaz de assumir seus atos e nega, colocando em dúvida a afirmação de Ebba nesse sentido (o típico gaslighting). Quando ela mostra a gravação no celular que o próprio Thomas fez - e ele não tem mais como negar sua conduta - ele muda de estratégia, coloca-se como vítima, chora e manipula completamente a situação, colocando os filhos ao seu favor. Mas não pense que só Thomas é vilão nessa história. Ebba também mostra um lado bastante vil ao mostrar-se pouco disposta a abandonar seu sonho cor-de-rosa de família idealizada e acaba se sujeitando a uma situação falsa, completamente construída à base de fake news para voltar para a aconchegante "realidade" que tinha anteriormente. Já falei demais e daqui para frente é só spoiler. Algumas constatações: suecos são incrivelmente racionais e resolvem qualquer coisa só após muito diálogo e debate e esse filme não duraria nem quinze minutos se fosse uma família latina (eu catava meus filhos, mandava meu marido para a casa do ******* e ia embora imediatamente!); a masculinidade tóxica faz vítimas em todos os âmbitos e nem apenas homens se valem dela para estabelecer relações, algumas mulheres também estão tão inseridas numa realidade de masculinidade tóxica que não conseguem se desvencilhar mesmo que ela salte ao olhos; os papeis que as pessoas interpretam são construídos socialmente e geram determinadas expectativas que, ao não serem satisfeitas, causam profunda frustração e uma reação que pode - ou não - levar a uma conscientização do seu papel e o do outro dentro das relações humanas (isso aqui está ficando sociológico demais, vamos parar, pelamor rs). Voltando ao filme, a narrativa é linear, tem um ritmo bastante lento, prevalecendo diálogos longos e pormenorizados numa DR eterna entre o casal central, envolvendo, inclusive, terceiros que não têm nada a ver com o pato. A atmosfera é desgastante, pesada, aflitiva e angustiante - para mim, que tenho sangue quente, fiquei exaurida pela passividade de Ebba, que fala muito e faz muito pouco. O diretor usa muito bem os espaços e o ambiente geral para dar significados ocultos à situação - o desmoronamento de neve tem relação direta com o desmoronamento da família; o ambiente claro e gélido relaciona-se com a evidente frieza que existe entre aquele casal sob uma falsa aparência de coesão, e por aí vai. O filme usa e abusa de planos bem abertos, evitando uma maior proximidade com os personagens (o que se reflete no distanciamento do público em relação à família). Gostei da interpretação da dupla central: Lisa Loven Kongsli interpreta a contida, mas eloquente, Ebba, muito bem na personagem, e Johannes Bah Kuhnke interpreta o manipulador Thomas, com sua masculinidade frágil, seu egoísmo e infantilidade intrínsecos e sua manipulação evidente, também ótimo. Destaque para a cena onde Thomas toma uma invertida no seu ego inflado graças a duas moças - adorei - e para a cena do choro forçado e exagerado - muito reveladora. Não entendi bem os últimos dez minutos de filme, acho que podia ficar sem eles, quebrou muito o ritmo. Eu gostei demais pelos muitos significados que o filme tem, mas acho que muita gente vai se irritar com o falatório sem fim. Mas curti, viu, recomendo. Ps - O filme foi Prêmio do Júri do Un Certain Regard, em Cannes.

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