Filme do dia (87/2024) – “Já Fomos Tão Felizes”, de Chales Walters, 1960 – Após abandonar o magistério, o ex-professor Lawrence Mackay (David Niven) se torna crítico de teatro. Sua exposição social, no entanto, acaba por trazer problemas de relacionamento entre ele e sua esposa Kate (Doris Day), uma dona de casa ultra atarefada por conta de quatro filhos terríveis.
Os filmes em que Doris Day atuava eram, usualmente, leves, ingênuos e levemente cômicos, além de sempre terem algum apelo musical. Esta obra aqui não foge à regra. Confesso, no entanto, que esse estilo de obra dos anos 50 e início dos 60 dispara uma série de gatilhos em mim, pois, sob o nosso olhar crítico de hoje, ele evidencia todo o peso da condição feminina em uma sociedade machista e patriarcal. A história retrata um casal que vive refém de seus quatro filhos endiabrados e que não tem muito tempo para si. O marido, que acabara de abandonar o magistério para se dedicar à crítica teatral, começa a ganhar certa evidência social e midiática, despertando incômodo e ciúme na esposa por conta do claro assédio de uma aspirante à atriz. A narrativa é ligeira e não existem grandes conflitos ao longo da história. Ocorre que é impossível não perceber a situação de submissão, ainda que sutil e encoberta, que a esposa vive. Em inúmeras passagens ela se desculpa e pede perdão ao marido por sua conduta por apenas pedir maior presença dele em casa ou por se sentir sozinha enquanto ele vive em outro local (sem spoilers) e há uma cena específica em que ela diz que ela e os filhos vivem do dinheiro dele, sendo, portanto, parasitas (!!!!). Há uma crueldade intrínseca nestas cenas, além de perpetuar um equívoco histórico acerca do trabalho feminino não remunerado dentro do lar, uma das bases da acumulação capitalista e esteio do patriarcado. Não vou tecer um longo discurso feminista sobre o filme e outras obras similares, mas é certo que onde minha mãe via romance, eu vejo abuso e exploração, justificando um ranço profundo deste filme e de outros. E, antes que alguém me acuse de ignorar o contexto histórico, essa questão não afasta em nada o fato de as mulheres estarem numa situação de dependência financeira e emocional e, assim, viverem numa condição de submissão aos homens. Ah, e não vamos nos esquecer das cenas em que a rivalidade feminina é incentivada e nas quais mulheres disputam homens com outras mulheres e outras em que elas são objetificadas – enfim, o mais puro caldo do machismo e misoginia. Bem, essa é a minha leitura, claro. A narrativa é linear, em ritmo moderado e constante. A atmosfera é de leveza e humor, inclusive com muita acidez. As observações bem-humoradas e irônicas da esposa sobre seus filhos endiabrados são, para mim, o melhor do filme, mas talvez deixem algumas pessoas incomodadas. Temos uma ou outra cena musical, aproveitando o talento de Doris Day para a coisa (inclusive ela canta, pela milionésima vez, um trecho que “Que sera, sera”). Outra crítica: ainda que Doris Day e David Niven, individualmente, tenham um talento indiscutível, inclusive com um super apelo cômico, juntos, na minha opinião, não funcionaram. A ausência de química entre os dois é evidente, mesmo que algumas passagens cômicas até tenham funcionado (como as tentativas frustradas do casal em passar algum tempo a sós). No elenco, ainda, Janis Paige como a “sirigaita” Deborah Vaughn, Richard Haydn como o amigo Alfred e Spring Byington como a mãe e conselheira de Kate (os conselhos mais machistas ever!!!). Já ficou claro que o filme não me agradou, certo? Mas acredito que existe um nicho de senhorinhas que o adoraria... rs. Para quem quiser conferir, está disponível em streaming no Looke (vejam por sua conta e risco...).
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