• hikafigueiredo

"Juventude Desenfreada", de Nagisa Oshima, 1960

Filme do dia (270/2020) - "Juventude Desenfreada", de Nagisa Oshima, 1960 - Após salvar Makoto (Miyuki Kuwano) de um estupro, Kiyoshi (Yusuke Kawazu) começa um relacionamento abusivo e conturbado com a adolescente, com resultado devastador.





Acredito que o diretor tinha a intenção de realizar um filme ousado acerca de uma juventude liberta dos tradicionalismos japoneses e que seguia, livremente, seus desejos, mas, o que eu vi, foi um festival de misoginia e abuso contra as mulheres e uma personagem com clara "síndrome de Estocolmo", o que me incomodou profundamente. Ao longo da história, todas - eu disse todas - as personagens femininas sofrem abusos por parte dos homens que cruzam seus caminhos, abusos que vão de estupros a agressões físicas, passando por ofensas verbais, extorsões e ameaças. E todas essas personagens aceitam e normalizam tais condutas, permanecendo sob o jugo de seus amantes e companheiros como se não houvesse qualquer saída possível. Ainda que eu saiba que a cultura japonesa é notoriamente machista e as mulheres japonesas, com frequência, são submissas a seus pais e maridos. existe o limite do aceitável e esse filme ultrapassa - e muito - qualquer linha nesse sentido. Mas, além do conteúdo misógino, a obra ainda tem um desfecho, na minha opinião, moralista, no melhor estilo "aqui se faz, aqui se paga". Como é evidente, a obra não me agradou e tampouco me envolveu - eu a assisti "de fora", fui incapaz de me conectar com a narrativa e seus personagens. Mas, admito que o filme tem uma virtude, que é a inovação em termos de linguagem, pois Oshima foge daquele tradicional padrão estético japonês, com planos muito bem desenhados, câmera fixa e ritmo lento e envereda por um terreno onde uma câmera nervosa, muito movimentada e um ritmo, por vezes, frenético, é a ordem. A fotografia deixa de ser tão "limpa" e são várias as cenas noturnas escuras ou cenas de câmera na mão, trazendo certo naturalismo ao filme. Das interpretações, preferi o trabalho de Yusuke Kawazu como bad boy Kiyoshi. Já conhecia Miyuki Kuwano dos filmes de Ozu, mas não gostei dela nesse filme, achei que faltou emoção em sua Makoto. Como já expressei, não gostei do filme, mas, como cinema, não diria que é ruim, possuindo virtudes. Por outro lado, acredito que existam inúmeros outros filmes mais interessantes de se ver na filmografia japonesa, motivo pelo qual vou me abster de recomendá-lo.

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