• hikafigueiredo

"La Pointe Courte", de Agnés Varda, 1955

Filme do dia (182/2020) - "La Pointe Courte", de Agnés Varda, 1955 - Num pequeno vilarejo de pescadores - o "La Pointe Courte" do título - um casal discute sua relação enquanto passa as férias no local onde nasceu o marido.





A obra é um drama leve com um quê de documentário que acompanha, por alguns poucos dias, a discussão de um casal sobre a sua relação. Ao longo dos dias, essa relação vai mudando, tomando outras feições à medida em que a esposa se reaproxima do marido. Paralelamente a isso, a obra retrata o cotidiano dos moradores da pequena vila de pescadores, local de origem do marido daquele casal. Vi uma semelhança entre esta obra e "Cléo das 5 às 7" (1962), que é justamente a vida do ambiente onde se passa a história, que continua acontecendo completamente alheia aos dramas pessoais dos protagonistas; mas, se em "Cléo das 5 às 7" a Paris retratada era vívida, agitada, pulsante, nessa obra a vila de pescadores é modorrenta, preguiçosa (exceto no momento do festival) e, acima de tudo, melancólica. Aliás, diria que esse é o melhor adjetivo para esse filme: melancólico, pois há, no ar, uma saudade difusa daquilo que foi vivido pelo personagem marido, mas que nós, espectadores, só podemos imaginar, já que não foi vivido por nós. O roteiro mescla pouco a pouco, o cotidiano do casal com aquele dos moradores do lugar - no começo da narrativa as duas existências estão bem separadas, mas, paulatinamente, vão se aproximando até que o dia a dia do casal é "engolido" pelo cotidiano da vila, tornando-se uma coisa só. A narrativa ocorre em tempo cronológico, linear e o ritmo é suavemente lento. A fotografia é P&B pouco contrastada. O filme utiliza locações reais do local, com prevalência das cenas externas, bem como aproveita os moradores locais para interpretarem-se a si próprios. Philippe Noiret interpreta com delicadeza o papel de marido e Silvia Monfort, o de esposa. Achei a interpretação de Noiret mais sutil que a de Monfort, talvez por ser um personagem mais rico diante do fato dele ter mais proximidade com aquele ambiente e estar vivenciando um retorno ao lar. É uma obra interessante, embora bem menos rica e complexa que "Cléo das 5 às 7" (que, eu gostei infinitamente mais). Talvez por se tratar também de um filme sobre uma vila de pescadores e retratar o cotidiano real daquela população, vi certo diálogo da obra com "A Terra Treme", de Luchino Visconti (1948), muito embora esta última seja mais "denúncia" que o filme de Varda. Destaque para a cena do festival e para a melancólica festa depois do torneio. Eu gostei, mas sem muita paixão.

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