top of page
  • hikafigueiredo

“Ladrão Apaixonado”, de Mario Monicelli, 1960

Filme do dia (52/2023) – “Ladrão Apaixonado”, de Mario Monicelli, 1960 – A aspirante a atriz Gioia Fabbricotti (Anna Magnani) é convidada por amigos ricos para passar a virada de Ano Novo com eles, mas acaba na companhia do batedor de carteiras Lello (Ben Gazarra) e seu comparsa Umberto (Totò).





Poucas vezes na vida vi a tradução de um título tão mau caráter na vida, pois não há qualquer ladrão apaixonado na trama!!! O filme – que não se trata de uma comédia romântica, como o título nacional sugere – é uma comédia italiana com traços de crítica social, cujo nome verdadeiro – “Risate di Gioia”, ou “Risada de Alegria” – é uma clara ironia com o que acontecerá com a nossa protagonista Gioia ao longo da narrativa. Gioia é uma aspirante a atriz (na realidade ela não passa de uma figurante) que tem sonhos grandiosos de fama e fortuna. Ela é convidada para passar o Ano Novo com amigos abastados, mas eles acabam abandonando-a no local do encontro sem qualquer pudor. Chateada, ela busca um baile para passar a virada de ano, local onde encontra o amigo de longa data Umberto, um golpista de bom coração. Ocorre que Umberto está no baile apenas para dar suporte a Lello, um batedor de carteiras boa-pinta, mas sem quaisquer escrúpulos. Sem saber do combinado, Gioia acaba se unindo à dupla, acreditando, erroneamente, haver algum interesse romântico da parte de Lello. A história é uma grande comédia de erros, onde os personagens vagam por Roma, pulando de lugar em lugar – Gioia em busca de companhia e glamour e Lello atrás de vítimas para aplicar golpes. O diretor Mario Monicelli não esconde seu claro orgulho de ser italiano – seu “olhar” para a cidade de Roma não poderia ser mais apaixonado, escolhendo, a dedo, as locações para seus personagens, lugares históricos e visualmente deslumbrantes, cheios do charme romano. Ainda que o filme seja uma comédia, há espaço para a crítica social através de um curto discurso de Lello, que justifica sua conduta pela completa falta de perspectiva desde a tenra infância, ainda na época da guerra, até aquele momento, numa sociedade marcada pela desigualdade e injustiça. A narrativa é linear, em ritmo marcado e constante. A atmosfera geral do filme é leve, levemente irônica e romântica. O filme conta com uma fotografia P&B marcada, com momentos inspirados, como na cena dos espelhos no baile de Ano Novo, onde a câmera brinca com a realidade (Gioia) e o reflexo do espelho (Lello). O desenho de produção apoia-se muito nas locações reais da apaixonante Roma – nada mais lógico! Quanto às interpretações, temos três grandes intérpretes contracenando. Não tem nem o que falar da maravilhosa Anna Magnani – a atriz era tão espetacular que conseguiu superar o fato de não ter nenhuma beleza padrão, impondo seu magnetismo indiscutível, transformando-se em musa do cinema italiano. Aqui, Magnani interpreta a romântica, quase ingênua, mas com forte personalidade, Gioia – incrível como todas as personagens de Magnani, mesmo as cômicas, sempre trazem algo de trágico, e aqui não foi diferente; no papel de Umberto, Totò, um ator com forte veia cômica e imensa simpatia, ótimo no papel; e, como Lello, Ben Gazarra – o personagem, charmoso e sedutor, pouco a pouco mostra seu pouco caráter e nenhuma empatia, muito bem interpretado por Gazarra. A obra é gostosa de se assistir e flui com facilidade, ainda mais face às interpretações deliciosas do trio protagonista. Gostei bastante e recomendo.

2 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page