• hikafigueiredo

"Madres Paralelas", de Pedro Almodóvar, 2021

Filme do dia (36/2022) - "Madres Paralelas", de Pedro Almodóvar, 2021 - Janis (Penélope Cruz) é uma mulher madura que engravida de seu amante Arturo (Israel Elejalde). Ana (Milena Smit) é uma adolescente que engravida em uma situação dramática. Ambas mães solo, conhecem-se na maternidade, no momento do parto e desenvolvem uma relação de muita intimidade. Mas o destino terá mais a revelar para ambas as mulheres.





Almodóvar, tradicionalmente, trabalha com o universo feminino em várias e diversificadas frentes. Da maternidade de "Julieta" (2016) à sexualidade de "Ata-me" (1989) ou à neurose de "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988), as personagens femininas, com frequência, estão no cerne da obra almodovariana. Como o próprio nome desta obra revela - "Madres Paralelas" - aqui, mais uma vez, as mulheres ganham o foco, mas, curiosamente, como meio de discutir um tema que não se restringe ao feminino. Claro, o filme toca na questão da maternidade, mas ela, na verdade, não é o assunto central da história. Na minha leitura, a obra trata, muito mais, dos laços de sangue e afeto que unem famílias e pessoas e que traçam a história de cada um que, por sua vez, liga-se às histórias de todas as demais pessoas, formando uma grande rede de relações interdependentes. Nesse contexto, aquilo que aconteceu com nossos antepassados tem um "peso" na nossa vida e, de certa forma, ajuda a nos forjar como somos, assim como nossas ligações sociais. Na história, Janis surge como o elo de ligação entre o passado, na forma dos desaparecidos políticos, dentre os quais o bisavô de Janis, e o futuro, as bebês nascidas de Ana e da própria Janis. É interessante perceber como Almodóvar lega um peso maior às mulheres nessa intrincada rede de relações familiares e sociais - são elas que cimentam essas relações, pois são elas que "ficam", enquanto os homens morrem, ausentam-se ou simplesmente não assumem seu papel dentro desta rede. E são essas mulheres que buscam respostas a perguntas, soluções para problemas e, de certo modo, a "pacificação" de situações de conflito. Achei muito interessante e importante o foco dado na questão política no filme, algo muitas vezes deixado de lado pelo diretor - aqui, ele assume as cicatrizes deixadas pelo franquismo na Espanha, cicatrizes essas que perduram ao longo do tempo até os dias de hoje. Como é comum nos filmes do diretor, a obra tem um componente pronunciadamente melodramático correspondente ao arco das duas mães, enquanto o tema dos desaparecidos políticos ganha contornos mais densos e dramáticos. A narrativa é linear, com uma única cena fora da cronologia (o momento em que Janis anuncia sua gravidez para Arturo - nem entendi o porquê dessa exceção à linearidade). O ritmo é bem marcado, tipicamente almodovariano. A atmosfera traz uma angústia latente e contínua, não apenas pela questão da maternidade das personagens, mas, também, pela necessidade que Janis tem de construir sua história - tanto "para trás", quanto "para frente". O filme traz a costumeira fotografia bem contrastada e de cores bem saturadas do diretor, assim como a direção de arte que privilegia a cor - o vermelho está sempre muito presente nos filmes de Almodóvar -, ainda que, há um bom tempo já, Almodóvar tenha abandonado o "kitsch" do começo da carreira e abraçado um visual bem mais sofisticado e "clean". Admito que, apesar do filme estar concorrendo ao Oscar 2022 de Trilha Sonora, eu não consegui perceber, minimamente, esse quesito da obra - eu digo que eu sou meio surda para cinema, é uma desgraça!!! rs Por outro lado, a outra categoria no qual o filme concorre ao Oscar 2022 - qual seja, Melhor Atriz, com Penélope Cruz - é impossível passar incólume. A atriz faz um belíssimo trabalho como Janis, consistente, sem errar a mão - e olha que descambar para o exagero, para o melodramão choroso, aqui, teria sido bem fácil. A Janis de Penélope Cruz traz seus dramas, tem suas idiossincrasias, mas não nega, em momento algum, que se trata de uma mulher já vivida, que tem condições de trabalhar sua questões com equilíbrio e maturidade. Também gostei do trabalho de Milena Smit como a jovem e perdida Ana - a atriz também poderia ter pesado a mão no papel, exagerando nas reações da moça com passado atribulado e traumas recorrentes, mas não o fez. Israel Elejalde interpreta Arturo - bem, mas nada de outro mundo, na minha opinião. O elenco ainda traz Aitana Sánchez-Gijón como Teresa e, claro, Rossy De Palma, uma das musas de Almodóvar, como Elena. Eu sou suspeita para falar do diretor porque gosto demais de sua obra (com raríssimas exceções) - adoro como ele trabalha o universo feminino, com um olhar de paixão raro - mas é certo que o filme me envolveu demais e eu fiquei fascinada pelo desenrolar da trama. Destaco, sem dúvida, o componente histórico-político da narrativa, um viés que sempre me envolve. Curti e recomendo.

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