• hikafigueiredo

"Men - Faces do Medo", de Alex Garland, 2022

Filme do dia (113/2022) - "Men - Faces do Medo", de Alex Garland, 2022 - Após um evento traumático, a jovem Harper (Jessie Buckley) resolve se recolher em uma casa no interior para curar suas feridas. O aconchego, no entanto, logo dará espaço a um terrível pesadelo.





Fiquei interessada na obra assim que li uma breve sinopse, mas não esperava um filme que fosse tão fundo na realidade feminina. A obra é uma fiel tradução do terror que ronda toda e qualquer mulher num mundo dominado pelo patriarcado e pelo machismo estrutural. Ainda que tenha, a certa altura, um componente fantástico e sobrenatural, o filme é assustador por mostrar, de forma crua, o que é "ser mulher" no dia-a-dia. A personagem Harper é uma mulher comum que acaba der viver um evento traumático relacionado ao seu marido James, com quem vivia um relacionamento sutilmente abusivo. Para se recuperar, ela resolve ficar um tempo sozinha em uma aconchegante casa no interior. A partir dessa premissa, teremos um desfile de tudo o que assombra as mulheres no mundo em que vivemos: o descrédito por parte dos homens; a pecha de "maluca", "cruel" ou "insensível"; a eterna culpa judaico-cristã que carregamos; o desrespeito às nossas opiniões; o assédio sexual, alegadamente causado por "provocação nossa"; ser reduzida a "esposa" de alguém (mulher como posse masculina); a possibilidade da violência real ante o fato dos homens terem maior força física que as mulheres; a sensação de impotência; a chantagem emocional e o "gaslighting" ("você está fazendo isso comigo" e "você está louca!"). O filme mostra como as mulheres são vítimas de violência (psicológica, física, sexual) constante por parte dos homens, independente da idade, status, cor ou até mesmo intenção consciente de seu interlocutor. O machismo é tão arraigado que até quando tentam ser gentis, os homens acabam expondo opiniões e crenças demeritórias para com as mulheres, o que é muito claro através do personagem Geoffrey. A obra traz um terror psicológico que apenas na terceira parte transforma-se em algo sobrenatural, justamente quando abraça algumas metáforas um pouco excessivas e talvez desnecessárias, ao menos para o público feminino (mas que talvez seja bom para reforçar as ideias para o espectador do gênero masculino). O que é mais impressionante na obra é a capacidade de transmitir o conhecido desconforto feminino quando mulheres se veem sozinhas com os homens - os únicos momentos de acolhimento e relaxamento para a protagonista são aqueles em que ela está na companhia de outras mulheres, jamais quando está com homens, estejam estes sozinhos ou em grupo, sejam estes conhecidos ou desconhecidos. "Ah, mas também não é tanto assim" e "Mas nem todo homem..." - então, é muito importante que os homens percebam que, mesmo sem intenção, eles reproduzem o machismo diuturnamente e que a desconstrução do machismo é algo consciente, diária e ininterrupta - e a obra traduz isso perfeitamente. A narrativa é prioritariamente linear, muito embora conte com várias cenas em "flashback" do tal evento traumático. O ritmo começa lentinho, mas ganha agilidade à medida em que se aproxima do desfecho. A atmosfera é de tensão crescente, desconforto, medo e indignação. Tecnicamente, o filme traz uma fotografia esmerada, bem saturada e contrastada, com posicionamentos de câmera variados e criativos, como os plongées na floresta. A música é suave, contrastando com a tensão e o desconforto da protagonista. A interpretação de Jessie Buckley é perfeita e admirável, principalmente pelo fato da personagem não se colocar como vítima, mas, sim, tentar confrontar essa realidade opressora e desigual em que vive num mundo masculino. O elenco traz ainda Rory Kinnear como Geoffrey, numa interpretação igualmente contundente - todo o cavalheirismo do personagem esconde um profundo sentimento de superioridade; Paapa Essiedu interpreta James, convincente no papel; Zak Rothera-Oxley interpreta o esquisito Samuel; e Gayle Rankin faz a amiga e acolhedora Riley. Sério, eu amei o filme, ele conversa bem intimamente com o público feminino e mesmo os exageros finais são perdoáveis. Achei bem curioso o fato do roteiro e direção terem sido feitos por um homem, o diretor Alex Garland - não sei como ele captou tão bem esse sentimento e essa realidade feminina sendo um homem!!!! Eu curti muito e recomendo demais!!!

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