• hikafigueiredo

"Meteorango Kid, O Herói Intergalático", André Luiz Oliveira, 1969

Filme do dia (328/2020) - "Meteorango Kid, O Herói Intergalático", André Luiz Oliveira, 1969 - Acompanhamos fragmentos da vida de Lula (Antônio Luiz Martins), um rapaz de classe média da sociedade baiana.





Legítimo exemplar do Cinema Marginal, movimento cinematográfico brasileiro questionador e provocativo, o filme traz praticamente todos os elementos que caracterizaram o movimento: no conteúdo, a crítica a quase tudo - política, religião, sociedade, família tradicional, cinema, propaganda; o tom provocador e debochado, que esfrega na cara do espectador cenas que estão ali justamente para incomodar; a violência, explícita e implícita; a presença do grotesco e repulsivo, também no intuito de tirar o espectador de sua zona de conforto; a sexualidade sem viés romântico. E na forma, a falta de cuidado com a imagem e o som; a fotografia "suja", câmeras na mão tremidas ao extremo; uso de sons incômodos e desconexos; descuido com a sincronia entre imagem e som; interpretações forçadas e amadoras; o exagero e o falso. Para quem gosta da proposta - porque precisa gostar MESMO de Cinema Marginal, não é um movimento que suporte uma indiferença cômoda, ou você curte ou você odeia com todas as suas forças -, a obra é um achado. São diversos "esquetes", sem relação uns com os outros, uns após os outros, todos em profundo tom de deboche e claro intuito de causar incômodo ou indignação - cenas de consumo explícito de drogas, cena em que um revólver é apontado diretamente para a câmera/espectador, cena em que a produção cinematográfica brasileira é esculachada, dentre inúmeras outras. A cena inicial, onde o personagem Lula aparece de Jesus Cristo, desce de um coqueiro e coloca-se numa cruz, onde passamos a observá-lo é impactante e traz muita força em si própria. Engraçado que, em meio ao descuido com a fotografia, inúmeras cenas revelam enquadramentos sofisticadíssimos e evidente noção de composição de quadro, assim como há algumas cenas de movimento de câmera extremamente expressivas e bem realizadas, quase como se o diretor falasse "olha, eu estou trazendo uma imagem desleixada porque eu quero, não porque eu não saiba fazer diferente". A edição de som é uma esquizofrenia sonora e tem de tudo um pouco, impossível descrever. A trilha sonora traz músicas de Moraes Moreira intercaladas com músicas internacionais, de uma maneira quase caótica. Aliás, a ideia de caos acompanha a obra do começo ao fim. O elenco é formado por atores amadores e iniciantes e, evidentemente, pela galera amiga do diretor e membros da equipe, inclusive o protagonista (o que não o impede de ser profundamente expressivo, em especial na cena inicial já mencionada). Para mim, que adoro Cinema Marginal (inclusive foi tema de trabalho na faculdade lá em "mil novecentos e guaraná com rolha"), a obra é perfeita, eu realmente adorei - mas não é para todo o público, que fique bem claro, é filme 200% autoral, tem que embarcar na viagem do diretor e esquecer o cinema tradicional. Recomendo MUITO, mas só para quem já tem familiaridade com o movimento ou está muito disposto a conhecer algo bem diferente.

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