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"Mulheres Diabólicas", de Claude Chabrol, 1995

Filme do dia (425/2020) - "Mulheres Diabólicas", de Claude Chabrol, 1995 - Sophie (Sandrine Bonnaire) é contratada para trabalhar como doméstica na casa da sofisticada e pedante Catherine (Jacqueline Bisset). Ela conhece Jeanne (Isabelle Huppert), uma funcionária dos correios, e logo ficam amigas. No entanto, essa amizade irá despertar características obscuras de ambas as mulheres.





Como o recente filme "Parasita" (2019), a obra traz significados que vão além do literal. Se, à primeira vista, o filme trata de duas mulheres de comportamento doentio, frias e calculistas, uma leitura menos óbvia remete a um conflito bem mais profundo: a luta de classes. As condutas de Sophie e Jeanne, ambas de origem humilde e pobres numa concepção mais ampla, são, claramente, vinculadas a um ódio de classe, a uma mágoa pela forma como são tratadas por Catherine, pelas posses da família em questão (mas não apenas desse núcleo familiar), pelo poder de compra apresentado por diversos moradores daquele povoado. Isso fica evidente nas cenas relacionadas ao trabalho voluntário das duas mulheres junto à igreja local e na cena em que Jeanne diz que com uma pequena mostra do que a família de Catherine possui, ela própria teria uma vida confortável, com tudo aquilo que ela queria ter. O filme, assim, traz uma representação da ebulição da luta de classes quando no seu limite - veja que ambas só dão vazão à sua revolta quando fortalecidas pela união entre as duas -, e, ao longo da narrativa, diversas passagens reforçarão essa ressignificação. Por outro lado, o filme também "funciona" para quem não tem tanto interesse assim em ir à essência da obra, oportunidade em que a leitura textual mostrará o comportamento pouco são das duas personagens principais. Formalmente, o filme é bastante convencional, traz uma narrativa linear, com um ritmo moderado e uma atmosfera inicialmente desconfortável que, paulatinamente, torna-se mais e mais tensa, até alcançar o clímax em uma explosão de violência (sem spoilers). Os maiores destaques, na obra, ficam por conta da direção segura de Chabrol e da interpretação magistral de Sandrine Bonnaire e da semi-deusa Isabelle Huppert. As personagens Sophie e Jeanne, certamente, não são nada simples de serem interpretadas - são personagens controversas, que, em pouco tempo, despertam verdadeira aversão no espectador. Elas são rancorosas, insensíveis, calculistas e a união de ambas traz empoderamento às suas condutas. Cabe lembrar que Huppert adora essas personagens controvertidas e se sai excepcionalmente bem quando as interpreta, vide "Madame Bovary" (1991), "A Professora de Piano" (2001) e "Elle" (2016). Por seu trabalho, Huppert recebeu o Prêmio César de Melhor Atriz em 1996. Destaque para a cena em que as duas personagens vão receber as doações da igreja - perfeita! A obra é ótima, incomoda, instiga e envolve o espectador em uma verdadeira rede de emoções e sensações diversas. Filmão, hein! Recomendo.

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