• hikafigueiredo

"Não Olhe Para Cima", de Adam McKay, de 2021

Filme do dia (370/2021) - "Não Olhe Para Cima", de Adam McKay, de 2021 - Durante um monitoramento de rotina do céu, a jovem astrônoma Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) descobre um corpo celeste desconhecido até então. Durante a comemoração do feito, o professor Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) percebe que o corpo celeste está em franca rota de colisão com a Terra. Desesperados, os cientistas tentam alertar o mundo acerca da ameaça vindoura, mas são ignorados pelos detentores do poder.





Após duas verdadeiras façanhas - os impagáveis "A Grande Aposta" (2015) e "Vice" (2018) -, obras que trataram, com comicidade e leveza, de assuntos áridos como crise econômica e crise política, respectivamente, o diretor Adam Mckay aposta em em um filme catástrofe para apontar um sem número de críticas à sociedade como um todo e à megapotência Estados Unidos em particular. Há tantas questões na obra que é até difícil de enumerá-las, mas, em um primeiro plano, a crítica é para a própria sociedade capitalista e sua lógica de consumo. Desta, há todos os desdobramentos possíveis, sobrando "chumbo" para todos os lados - critica-se, em maior ou menor grau, dentre outros, o uso político da informação, a manipulação midiática, o uso político e econômico da tecnologia, o fanatismo político, a "cegueira" das massas, as redes sociais, os detentores do poder, o poderio militar e econômico norte-americano, o negacionismo científico, etc, etc, etc. E não paramos por aí - há uma clara paródia a figuras públicas mundiais como Donald Trump e Elon Musk, ainda que "fundidos" a outras figuras públicas de seus nichos, como Hillary Clinton e Mark Zuckerberg. O argumento é simples: um meteoro de proporções gigantescas está em rota de colisão com a Terra. Uma possibilidade seria tentar mudar a rota do corpo celeste ou destruí-lo enquanto não se aproxima demais do nosso planeta. Mas, para isso, os cientistas precisam convencer a elite econômica e política da desgraça iminente. É evidente que o roteiro inspira-se na questão da mudança climática e no eco que se tem visto em relação aos constantes avisos dos cientistas - em outras palavras, a gente já vive o que é retratado e criticado na história, só que com pequenas modificações. A narrativa é linear, em ritmo intenso e crescente. A atmosfera é uma bizarra mistura de tensão diante da corrida contra o tempo e uma comicidade nervosa diante da reação de quase todos no planeta. Como nos filmes que o antecederam, aqui tudo é tratado com certa leveza e humor - um humor irônico, debochado, que faz o espectador rir, ainda que um riso repleto de incômodo e tensão. É um filme para incomodar, espezinhar, cutucar o espectador que, como o público mostrado na história, parece natimorto e mostra-se insensível àquilo que lhe é apresentado. No fundo, a gente ri de nós mesmos... isso chega a ser triste e me deixou um gosto muito amargo ao fim da obra. Tecnicamente, temos um filme super "alto padrão Hollywood" - fotografia irretocável, uso intenso de CGI, muitos efeitos especiais, edições de som e imagem de primeira qualidade - o que o filme tem de autoral é realmente o conteúdo, a maneira de levar o assunto tratado e não a forma (diferente do ótimo "A Grande Aposta", que era autoral também formalmente). O elenco estreladíssimo já denota o quanto o diretor se encontra em alta no meio cinematográfico - Jennifer Lawrence interpreta a astrônoma Kate Dibiasky, a personagem mais empenhada em alertar o mundo do que está por vir - a atriz está bem no papel, embora eu comece a perceber alguns maneirismos na atriz; Leonardo DiCaprio interpreta o Dr. Randall Mindy - o personagem é um pouco mais espesso que a interpretada por Lawrence, ele tem conflitos, ele tem ações mais erráticas e eu o achei bem mais interessante do que a personagem Dibiasky, e é lógico que DiCaprio está ótimo no papel; Meryl Streep interpreta a Presidente dos EUA Janie Orlean - a personagem é evidentemente inspirada em Donald Trump, ainda que traga um pouco de outras figuras políticas norte-americanas como o casal Clinton e até mesmo Ronald Reagan, e poderia parecer um pouco histriônica, não fosse a sua inspiração primeira, pois Trump é tão ou mais exagerado que a personagem e tão ou mais horrível como ser humano que Janie Orlean. E claro, Streep está deliciosamente odiosa no papel; Cate Blanchett interpreta a âncora de tv Brie Evantee - não saberia dizer em quem ela se inspira, mas aposto que ela também é uma fusão de várias apresentadoras norte-americanas, que Blanchett expõe de forma quase cruel; Mark Rylance é uma verdadeira cereja do bolo como o magnata e empresário Peter Isherwell - a inspiração primordial aqui é o megamilionário Elon Musk, mas há ecos do "tio Zucka", de Steve Jobs, de Jeff Bezos e cia. ltda. Então... estar no topo da "cadeia alimentar" já demonstra alguma coisa errada com essa gente e o personagem vai expor um bocado do que a elite econômica é capaz (de boa, dá uma vontade doida de surtar) e Mark Rylance está primoroso como o arrogante "gratiluz" Peter (sim!!! Porque esse pessoal adora posar de equilibrados, magnânimos e altruístas, mas, vamos combinar, o planeta não seria esse inferno se eles fossem assim bacaninhas). No elenco, temos ainda Timothée Chalamet, Jonah Hill (seu personagem é detestável, mas acabei morrendo de pena dele), Chris Evans, Ariana Grande, Matthew Perry, Rob Morgan, Ron Perlman, Melanie Lynskey, e mais uma galera. A gente ri a maior parte do filme, mas talvez ele não seja para dar risada não. Confesso que terminei o filme com um peso aqui dentro - reconhecer a realidade em uma obra de ficção é complicado às vezes. Eu gostei demais da obra, achei um tapaço na cara da sociedade (mas não é melhor que o primoroso "A Grande Aposta"). Recomendo e, de novo, está facinho na Netflix.

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