• hikafigueiredo

"Nós", de Jordan Peele, 2019

Atualizado: 23 de ago. de 2019

Filme do dia (60/2019) - "Nós", de Jordan Peele, 2019 - EUA, 1986. A pequena Adelaide (Madison Curry) passa por uma experiência traumática ao se perder de seus pais em um parque à beira-mar. Muitos anos depois, Adelaide (Lupita Nyong'o) retorna àquele mesmo local com seu marido Gabe (Winston Duke) e seus filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex). Rapidamente, Adelaide vê seu pesadelo de infância retornar, agora de uma maneira ainda mais assustadora.





Quem assistiu ao fantástico "Corra!" (2017) já sabia do talento excepcional do diretor Jordan Peele e da sua capacidade de usar o gênero do terror para fazer críticas sociais bastante contundentes. Se naquele filme Peele aproveita a ótima história para denunciar o racismo estrutural, neste ele amplia o universo de análise para falar de miséria e privilégios, criticar a meritocracia e denunciar a hipocrisia da sociedade ao favorecer alguns em detrimento de outros tantos. Uma ideia contida no filme que eu achei bastante interessante é a de que, na nossa sociedade, existem grupos ("nós", "eles") e que a distinção entre eles encontra-se exclusivamente no fato de terem (ou não) privilégios sobre os outros - tirando os privilégios, os grupos e seus integrantes são "idênticos". Mas, quem não quiser fazer elucubrações a respeito da realidade social, não precisa se preocupar - o filme se sustenta também como um delicioso entretenimento, entregando uma tensíssima história de terror, daquelas que nos fazem roer as unhas até a raiz. Sério, a chegada da "família do mal" à casa da família de Adelaide foi uma das passagens mais assustadoras que eu me lembro de ter visto em uma obra, é de arrepiar!!!! Peele tem um controle da narrativa cinematográfica fora do normal, ele "brinca" com o espectador, mas jamais de forma evidente - não, não espere "movimentos fáceis" nos filmes do diretor, você é levado aonde ele quer, mas essa manipulação é imperceptível ao público (aquela crítica que eu faço aos dramas hollywoodianos - você facilmente percebe que está sendo manipulado - e isso me irrita profundamente). Para tanto, Peele faz uso de uma fotografia que revela tão somente o necessário - são inúmeras as cenas em que só vemos um contorno corporal aqui e ali e o fato de não sabermos o que exatamente existe lá (ou, pior ainda, fora do nosso campo de visão) é desesperador!!!! Num raro caso de percepção sonora (já que até meu professor de sonorização me disse que eu era "surda para o cinema" :/ ), consegui perceber o quanto a música do filme colaborou com a criação de uma atmosfera de terror crescente - a trilha sonora é ótima, tanto a música incidental quanto aquela que realmente está inserida naquela realidade. Mas é impossível falar desta obra sem ressaltar o trabalho extraordinário dos atores e atrizes envolvidos, com destaque para a mulherada: Lupita Nyong'o está monstruosa como Adelaide e sua sombra do mal - a mudança de uma personagem para a outra é inacreditável, que trabalho de interpretação, minha Deusa!!!!!!! O mesmo podemos falar para a atuação da jovem Shahadi Wright Joseph - que pavor da "Zora do mal", que diferença entre ela e a "outra Zora"!!!!! Não dá para não destacar, ainda, a presença de ninguém menos que Elizabeth Moss ("The Handmaid's Tale), num papel menor, mas maravilhoso. Destaques: a cena inicial na casa dos espelhos - tensão no talo; os sentimentos contraditórios que a obra tem o poder de provocar naqueles que analisarem mais a fundo a questão e os motivos apresentados pelos "invasores"; o mesmo sentimento contraditório que surge com relação a ação final dos invasores (solidariedade entre os membros???? ); a surpresinha final estilo "Kinder Ovo" (se bem que nessa eu não caí, para variar, eu cantei a bola....).Cara... FILMAÇO!!!! Para ver para ontem!!!!!

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