• hikafigueiredo

"O Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla, 1968

Filme do dia (276/2021) - "O Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla, 1968 - Um assaltante de residências violento e contumaz, apelidado de "o bandido da luz vermelha" (Paulo Villaça), ganha notoriedade nas páginas policiais e passa a ser o principal procurado pela polícia, sob o comando do delegado "Cabeção" (Luis Linhares).





No final da década de 1960, o movimento do Cinema Novo começava a dar sinais de esgotamento. Uma série de novos cineastas surgia e ambicionava um cinema diferente do que vinha sendo feito até então. Enquanto o Cinema Novo caracterizava-se por ser um cinema de crítica, profundamente intelectualizado, preocupado com questões culturais estritamente brasileiras e que buscava uma linguagem cinematográfica nacional, o Cinema Marginal chegou como um cinema de protesto, ainda mais crítico, mas que buscava passar sua mensagem através de uma linguagem baseada no sensacionalismo e no popularesco. Saía a "Estética da Fome" e entrava a "Estética do Lixo". Ainda que muito diferentes, ambos os movimentos apostavam em um cinema profundamente autoral, o que pode ser percebido no filme "O Bandido da Luz Vermelha". A obra, considerada um dos maiores clássicos do Cinema Marginal, traz toda a crítica às convenções que marcou o movimento. Seguindo uma frase da própria obra - "Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha" - o filme é uma ode à desconstrução da linguagem cinematográfica e uma completa crítica ao sistema. Temos aqui o cinema do escracho - o autor rompe com o modelo de cinema clássico, subverte sua linguagem, enaltece aquilo que antes era considerado feio ou malfeito. É um filme agressivo, despreocupado com o cuidado técnico e formal. A narrativa é profundamente fragmentada e a linha temporal é muito tênue, quase inexistente - em outras palavras, tudo parece "jogado", não existe uma cadência de acontecimentos, a sequência de imagens não segue nenhuma lógica. O texto busca o que há de mais sensacionalista - inclusive, seguindo essa ideia, há a narração em off nos moldes dos programas policiais, despejando toda sorte de frases de efeito e, no meio delas, críticas violentas ao sistema e ao que mais se pode imaginar, tudo numa linguagem bem popular, de facílimo acesso. O ritmo do filme é frenético, há constante bombardeio de imagens, muitas das quais deslocadas, outras quase chocantes, mas sempre prontas a incomodar o espectador. Como os demais filmes do movimento, não existe preocupação com uma "estética limpa": a fotografia do filme é propositalmente "suja", isto é, a iluminação é chapada, assumem-se todas as sombras dos refletores possíveis, há cenas escuras demais, câmeras que tremem, enquadramentos estranhos e deslocados do assunto principal; da mesma forma, todo e qualquer som é nitidamente produzido em estúdio, bastante descolado de um som natural e as falas - todas - são dubladas de forma bem perceptível. Tudo é muito "kitsch", muito exagerado, é o esculacho mais que assumido. O texto, muito embora pareça aleatório, traz frases que são verdadeiras pérolas (eu tinha de ter anotado, mas marquei bobeira e não anotei e minha memória não chega à página dois), provocativas, insurretas, subversivas. É uma obra bastante caótica e deliciosa muito por isso, pois muito rica em leituras e informações, daquelas que podem ser vistas cem vezes e vão trazer novidades a cada revisita!!! No elenco, Paulo Villaça interpreta o marginal - segundo a definição do próprio personagem, um "boçal", mas que não deixa de ter um lado revolucionário, que "peita" o sistema, os poderosos e as autoridades. O ator está perfeito no papel, se considerarmos a lógica e estética do filme. É evidente que não se busca qualquer naturalismo, tudo é bem falso, exagerado e cheio de deboche. Na mesma linha, seguem as interpretações de todos os atores e atrizes - Luis Linhares, Pagano Sobrinho (como J. B. da Silva, o político, muito parecido com certas figuras da nossa política atual) e, claro, Helena Ignez (como Janete Jane), musa absoluta do movimento. Divertido perceber que metade da figuração foi feita por amigos ou conhecidos do diretor - estão lá Ozualdo Candeias, Maurice Capovilla, Neville d'Almeida, Carlos Reinchenbach e Julio Bressane, todos diretores de cinema, além de Renato Consorte, Sérgio Mamberti, Ittala Nandi e até Sonia Braga, em uma micro ponta. O filme é maravilhoso, ultra ousado, inovador, criativo - mas há que se gostar desta forma debochada, abusada, trash e fake. Aconselho para quem admira cinema autoral e subversivo e desaconselho para quem busca rigor formal e beleza convencional.

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