• hikafigueiredo

"O Castelo de Vidro", de Destin Cretton, 2017

Filme do dia (91/2018) - "O Castelo de Vidro", de Destin Cretton, 2017 - EUA, década de 60. Jeanette e seus três irmãos vivem com seus pais uma existência livre, porém desregrada. Beirando a indigência, a família cruza o país em um veículo velho e aos pedaços e precisa lidar com a fome e o alcoolismo do patriarca Rex (Woody Harrelson). Anos depois, na década de 80, Jeanette (Brie Larson) tenta construir uma vida diametralmente oposta com seu noivo e precisa decidir se quer ou não ter por perto seus pais.





O filme baseia-se num best-seller que narra as memórias reais de Jeanette Walls. Em linhas gerais temos, aqui, uma discussão sobre o "American Way of Life" e o sonho americano - a família Walls vive completamente à margem disto tudo, praticamente negando a existência do americano médio. Rex, o pai, surge aqui como a figura contraditória que, se por um lado critica o poderio financeiro dos bancos, coloca-se contra o establishment e nega-se a agir como um pai de família padrão, por outro, tem sonhos de grandeza e faz projetos irreais para o futuro. A maior parte das memórias da personagem Jeanette mostram uma família quase disfuncional, onde os mais centrados e responsáveis são justamente os filhos ainda crianças. Apesar disto, a história também gira em torno da aceitação e do perdão - Jeanette precisa recuperar seu passado, filtrar suas experiências, aceitar sua família - em especial seu pai - e aprender a perdoar. Há um diálogo sutil entre esta obra e o filme "Capitão Fantástico", de Matt Ross, apoiado na questão da vida alternativa, na negação do comum. A narrativa desenvolve-se em diferentes tempos - cenas da infância e adolescência de Jeanette intercalam-se com cenas de sua vida adulta, o que destaca o fosso existente entre os dois momentos. O filme tem um ritmo agradável, não chega a ser exatamente ágil, mas está longe de ser parado. Eu gostei bastante do argumento, mas acho que o resultado ficou aquém do que poderia porque senti problemas na direção, em especial na direção de atores. Apesar do elenco de primeira linha - inclusive com atores/atrizes de quem eu gosto demais - achei algumas das caracterizações e interpretações bem ruinzinhas. Quem se sai melhor é Woody Harrelson, salientando que seu personagem não é fácil, pois ao mesmo tempo pode ser adorável e odioso. Achei estranha a caracterização dele, no entanto - ele estava inchado, na sua primeira aparição na história, quase não o reconheci, parecia um sapo-boi de peruca. Brie Larson nem de longe lembrava a atriz de "O Quarto de Jack" - apática, contida, praticamente esvaziada de emoções (com uma única ressalva: a cena do braço de ferro, único momento em que senti alguma emoção na personagem) e sua caracterização também me pareceu "forçada". Mas quem deu vontade de chorar foi Naomi Watts como a mãe - jamais esperei dizer isso na vida, mas sua interpretação foi constrangedora, a personagem beirava a histeria; em outros momentos, parecia que sofria de algum retardo. Tudo bem que, nos créditos, quando mostram a verdadeira "mãe", ela não parece muito equilibrada mesmo, mas há que se lembrar que ali era já era uma mulher bem idosa, quero crer que ela não era assim na juventude. Créditos positivos também merece a jovem atriz Ella Anderson, que interpreta Jeanette pré-adolescente - bem boa, a garota. Eu achei o filme bem morno até dois terços dele, melhorando consideravelmente ao final. Não diria que gostei muito, mas tampouco diria que detestei - achei uma obra mediana. Dá para encarar sem sofrimento.

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