• hikafigueiredo

"O Medo do Goleiro Diante do Pênalti", de Wim Wenders, 1972.

Filme do dia (314/2021) - "O Medo do Goleiro Diante do Pênalti", de Wim Wenders, 1972. - O goleiro Joseph Bloch (Arthur Brauss) discute com o juiz durante uma partida e é substituído. Após, ele passa a vagar pela cidade, sem direção e, no dia seguinte acaba se envolvendo e passando a noite com a atendente de um cinema. Na manhã seguinte, sem qualquer motivo aparente, ele mata a jovem e volta a vagar sem rumo.





Primeiro longa-metragem de Wim Wenders, baseado no romance homônimo de Peter Handke, o filme traz, em comum com outras obras do diretor, o vagar do protagonista pelo espaço geográfico. Como os personagens de "Alice nas Cidades" (1974), "Paris, Texas" (1984) e "Asas do Desejo" (1987), Bloch vagueia, sem rumo ou direção, em busca de algo. No caso deste protagonista, sua procura é muito mais interna do que externa, pois ele busca a si mesmo, muito embora não consiga fixar o olhar para dentro. A narração de Bloch, já no fim do filme, acerca da dificuldade em manter a atenção no goleiro sem bola é uma clara alusão a si próprio. Se o filme se aproxima de outras obras do diretor por este aspecto, distancia-se na questão da sensibilidade. Senti esse filme bem mais cru, seco, que as obras posteriores, todas profundamente poéticas e delicadas. O filme também me passou um niilismo, uma desmotivação para qualquer ação, que, para mim, pesou um pouco, dando uma sensação de sufocamento. A narrativa é linear, em ritmo bastante lento. Muito sensorial, a obra traz uma atmosfera um tanto angustiante, decorrente do profundo vazio existencial do protagonista. Das questões técnicas, destaco a trilha sonora, muitas das vezes diegética (são inúmeras as cenas de junkbox e rádios tocando), recheada de canções da época, entremeada de longos e incômodos silêncios; e a edição que parece "esticar" algumas cenas até seu limite, resultando no ritmo extremamente lento, fazendo com que as ações do protagonista pareçam ainda mais aleatórias e sem objetivos. O protagonista é interpretado por Arthur Brauss, que consegue transmitir, ao espectador, todo o vazio interior do personagem (não sei dizer o porquê, mas o ator me lembrou, inúmeras vezes, Mads Mikkelsen, só que sem seu charme rs). Kai Fischer interpreta a personagem Hertha Gabler, e seu trabalho, muito bom, mostrou-se hábil em evidenciar o desconforto e a irritação da personagem pela presença injustificada de Bloch; Erika Pluhar, por sua vez, interpretou Gloria, a atendente de cinema. Para uma estreia nos longas-metragens, devo dizer que o filme é excelente, mas, comparado com a produção posterior do diretor, não posso dizer que está no mesmo nível, ficando um bocado aquém. Também devo alertar que é uma obra que pode gerar um certo incômodo no espectador, pois ele demora a delimitar uma forma, durante um bom tempo eu não consegui "ler" o que estava acontecendo na história e, só mais perto do final, que eu consegui encontrar um sentido para aquela narrativa. Apesar deste estranhamento inicial, gostei do resultado final e acho que vale a visita.

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