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"O Oficial e O Espião", de Roman Polanski, 2019

Filme do dia (46/2022) - "O Oficial e O Espião", de Roman Polanski, 2019 - França, década de 1890. O jovem oficial do exército Alfred Dreyfus (Louis Garrel) é julgado, condenado, expulso do exército, preso e degredado para a Ilha do Diabo. Pouco depois, o chefe da inteligência do exército francês é substituído, oportunidade em que o coronel Picquart (Jean Dujardin) assume o cargo. Ao modificar os procedimentos seguidos dentro da inteligência, Picquart vai se deparar com erros grosseiros na condução do julgamento de Dreyfus, a levantar a suspeita de que ele fora injustamente condenado.





O "Caso Dreyfus" talvez tenha sido um dos maiores escândalos da Justiça Militar que tenha chegado ao conhecimento do grande público em toda a história ocidental. Baseada em provas frágeis, elementos processuais fraudulentos e erros procedimentais crassos, a condenação de Alfred Dreyfus fundamentou-se sobre dois pilares abomináveis: o antissemitismo e o corporativismo do exército francês e, após questionada e revista, expôs toda a incompetência, corrupção e imoralidade do Estado-Maior do país. Há poucos anos da acachapante derrota na Guerra Franco-Prussiana, bem como da deposição do Imperador Napoleão III, a França encontrava-se em um franco momento de estabilidade política e social, assim como de prosperidade econômica e cultural e o Estado-Maior temia que a revelação da injusta condenação de um oficial abalasse a confiança e o prestígio do exército e do governo franceses frente à população - diante deste quadro, tentou esconder provas evidentes que apontavam para a inocência de Dreyfus, escolhido como bode-expiatório por sua ascendência judaica. O filme foca menos no condenado Dreyfus e muito mais na figura do Coronel Picquart, mostrado como um homem de integridade inabalável que, mesmo aconselhado por superiores e subalternos, preferiu seguir seus parâmetros morais e expor-se à fúria - tanto da hierarquia militar, quanto da sociedade - à fechar os olhos para a injustiça praticada. A narrativa é majoritariamente linear, ainda que faça uso de alguns flashbacks explicativos. O ritmo é moderado e regular, com praticamente ausência de clímax. A atmosfera é de indignação - como o protagonista, o espectador também fica boquiaberto com a displicência daqueles que conduziram o julgamento do oficial injustiçado, para, em seguida, indignar-se diante da farsa que é montada para impedir que a injustiça venha à tona: é asqueroso a maneira como os poderosos, qualquer que seja seu segmento, dispõem da vida dos demais! Impossível não perceber, na obra, um eventual paralelismo com a história do diretor Polanski, de igual ascendência judaica, que se alega inocente quanto à sua condenação pela justiça norte-americana por estupro de uma menor (que fique claro que eu não estou defendendo a inocência do diretor, mas apenas assumindo que ele se identifica com o personagem Dreyfus, já que se diz inocente no caso). O filme, tecnicamente, embora seja indiscutivelmente perfeito, mostra-se um tanto protocolar - Polanski poucas vezes deixa aflorar toda a sua criatividade na composição formal da obra e somente aqui ou ali vemos planos ou cenas que fujam do lugar comum, como a cena em que a câmera se afasta mostrando a Ilha do Diabo cada vez mais distante para dar a ideia do isolamento impingido ao personagem Dreyfus. Tanto a fotografia como a direção de arte da obra apontam para a sobriedade, apostando em uma paleta de cores escuras só quebradas pelos detalhes vermelhos dos uniformes do exército francês - as imagens remetem a um engessamento da corporação e, porque não dizer, da própria sociedade. O elenco traz, como Dreyfus, Louis Garrel, tão bem caracterizado que se mostra irreconhecível; Jean Dujardin interpreta o Coronel Picquart, numa belíssima atuação que destaca a indignação do personagem através de meros detalhes, uma vez que sua postura frente às acusações que lhe são feitas são, sempre, contidas e calculadas (eu adoro o ator e sou sempre meio suspeita quando falo dele! rs). No papel de Pauline Monnier, a recorrente atriz dos filmes de Polanski (e sua esposa), Emmanuelle Seigner - bem, mas num papel que não exige mesmo grande coisa. Eu, que não conhecia o "Caso Dreyfus", fiquei bastante envolvida pelo filme, sofrendo em cólicas pelos absurdos e injustiças da história. Ainda que não veja a obra como uma das grandes do diretor - afinal, no currículo dele temos filmes como "Repulsa ao Sexo" (1965), "O Bebê de Rosemary" (1968) e "O Pianista" (2002), dentre outros - ainda acho um filme bem acima da média. A produção foi agraciada com o Leão de Prata (Grande Prêmio do Júri) em Veneza (2019) e Roman Polanski recebeu o César (2020) de Melhor Diretor, enquanto o filme ficou com a Melhor Adaptação e Melhor Figurino na mesma premiação. Recomendo. (Está em streaming no ITunes e no Looke e foi lançado em BD pela Versátil).

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