• hikafigueiredo

"O Pássaro Pintado", de Václav Marhoul, 2019

Filme do dia (138/2021) - "O Pássaro Pintado", de Václav Marhoul, 2019 - Durante a Segunda Guerra, um menino judeu é deixado aos cuidados de sua avó em um local distante no leste europeu. Com a morte da avó, o menino se vê sozinho num mundo hostil e violento e precisa transformar-se para conseguir sobreviver nessa dura realidade.





Baseado no livro de Jerzy Kosinski, o filme trata da cruel natureza humana, do embrutecimento dos homens, da perda da inocência e da compaixão, da ausência de empatia, tudo pelos olhos de uma criança. Mas, mais do que tudo isso, o filme trata da maldade, na mais pura acepção do termo. Eu sou uma masoquista nata e adoro dramas pesados, daqueles de esfacelar o coração em pedaços miúdos. No entanto, aqui, acho que a obra passou do ponto. Digo isso porque é tanta crueldade - pura, gratuita, sem nenhuma motivação e vinda de todas as pessoas -, que torna o filme exagerado e chega a anestesiar o espectador. Veja bem, não estou dizendo que não existam pessoas horrendas, capazes de tudo, sádicas, psicopatas, sociopatas de diversos tipos - claro que existem. Mas não são TODAS as pessoas que são assim, né? Durante a jornada do menino, com uma ou duas exceções, o garoto só cruza com pessoas extremamente cruéis, que fazem o mal sem qualquer propósito, sem qualquer ganho ou objetivo, é o mal pelo mal. Essa sucessão de "maldades gratuitas" esvazia um pouco a narrativa e acaba afastando-a da realidade - que é podre, eu sei, mas não NESSE nível. São coisas como espancar o menino apenas porque ele chegou a uma pequena cidade, ou matar o cavalo que ele encontrou apenas para fazê-lo sofrer - são coisas que não fazem sentido e pesam a mão na história. Mais interessante é o processo de desumanização que o menino passa para conseguir sobreviver. Se no início o garoto é piedoso, gentil e amoroso com pessoas e animais, ele, paulatinamente, vai se embrutecendo até ficar igual aos seus algozes e capaz de grandes violências e crueldades. Não bastasse seu endurecimento, ele vai perdendo sua humanidade e até mesmo sua identidade humana - ele é uma "coisa", que sequer nome possui. Apesar do exagero da obra que anestesia o espectador, é um filme de difícil, dificílima, digestão. Qualquer pessoa com o mínimo de compaixão e humanidade vai sofrer vendo a obra, motivo pelo qual a desaconselho para pessoas sensíveis. "Ah, mas não tem nenhum alívio?" - não... não tem... é porrada atrás de porrada e até o desfecho, que acena com uma esperança longínqua, mostra-se bastante incerto. Só me lembro de dois filmes mais pesados que esse - "Vá e Veja" (1985) e "Tartarugas Podem Voar" (2004), inclusive por serem mais reais. A narrativa é linear e o ritmo lento e constante. A atmosfera é angustiante, triste, sombria. Apesar do tema horrível, o filme é esteticamente belíssimo e perfeito. A fotografia P&B usa e abusa de enquadramentos sofisticados, muitos plongées e contra-plongées, planos gerais e planos de detalhe - definitivamente, não é uma fotografia preguiçosa. Uma coisa que eu amei - e sempre amo nesse tipo de filme - é a ausência de música "manipuladora". Seja lá o que tiver de ter na cena, não tem uma música tristonha por trás - isso faz com que a experiência seja muito mais crua e verdadeira. O elenco traz atores tchecos desconhecidos, mas, também, intérpretes de diferentes nacionalidades bem conhecidos de todos, gente como Stellan Skarsgard, Harvey Keitel, Julian Sands, Udo Kier (de "Bacurau") e Barry Pepper - todos muito, muito bem. Mas quem merece palmas, de pé, é o ator mirim Petr Kotlár - ele praticamente não tem qualquer fala, passando o filme inteiro mudo, mas sua expressão facial e seu olhar são fascinantes e, mais importante, eles se transformam no decorrer da narrativa: a inocência que vemos nas primeiras cenas vai desaparecendo e dando lugar a um olhar de mágoa, rancor, ódio, frieza, é muito impressionante essa transformação. A obra, de quase três horas de duração, é um tremendo soco no estômago. Apesar dos exageros, achei um bom filme. Recomendado para pessoas fortes e masoquistas.

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