• hikafigueiredo

"O Que É Isso, Companheiro?", de Bruno Barreto, 1997

Filme do dia (04/2022) - "O Que É Isso, Companheiro?", de Bruno Barreto, 1997 - Rio de Janeiro, 1969. Diante da instituição do AI-5 durante a Ditadura Militar, o qual instaurou a censura à imprensa e revogou todos os direitos dos cidadãos, um grupo de jovens ligados ao movimento estudantil optam pela luta armada e se unem ao grupo MR-8. Após terem sucesso em uma ação, eles planejam uma nova intervenção: sequestrar uma figura eminente, ganhando, assim, a atenção da mídia.




Versão cinematográfica do livro homônimo do jornalista Fernando Gabeira, a obra retrata parte das experiências do autor junto à resistência à Ditadura Militar instaurada no Brasil após o Golpe de 1964. Com o recrudescimento da repressão e instituição do AI-5 em 1969, o jornalista Fernando resolve se unir a um movimento de luta armada e adere ao grupo MR-8. Percebendo que as ações do grupo, dentre as quais os assaltos a bancos, não alcançavam a mídia, logo, a população em geral, o grupo planeja uma ação ousada: sequestrar o embaixador dos EUA, estabelecendo uma série de termos para soltá-lo, inclusive a libertação e envio para o exterior de "companheiros" presos e torturados nos porões da ditadura. A obra foca, particularmente, no episódio do sequestro do embaixador, na repercussão de tal ousadia e no desenrolar do feito. É, antes de tudo, um filme didático, pois apresenta a situação em que o país se encontrava e que justificava a exasperação dos movimentos de resistência. Com um roteiro quase pedagógico, o filme apresenta uma narrativa linear e bem convencional, em ritmo marcado. A atmosfera é de tensão, agonia, uma vez que tais jovens estavam arriscando suas vidas e integridade física em prol de um sonho de liberdade, igualdade e justiça, bem na linha "não confunda a reação do oprimido com a ação do opressor". Tecnicamente, é uma obra muito bem feita, mas, também, bastante convencional, optando por uma forma mais comercial que autoral, visando, evidentemente, um alcance de público mais abrangente (lembrando que esta é uma das obras que marcou a retomada do cinema nacional após a extinção da Embrafilme no início dos anos 90, o que praticamente extinguiu o cinema nacional por mais de dez anos). O filme apresenta uma fotografia bem contrastada, quase pesada, escura, em especial após o sequestro do embaixador, legando tensão às imagens. Se a fotografia já apresentava uma significativa evolução se comparada a produções mais antigas, o mesmo não se pode falar do som - a qualidade sonora não é das melhores e, em algumas cenas, os diálogos ficaram "embolados", havendo certa dificuldade na compreensão. A direção de arte de época mostrou-se adequada e suficiente. O elenco não poderia ser mais "estrelado": no papel do personagem Fernando - rebatizado de "Paulo" pelo movimento -, um ótimo Pedro Cardoso, o qual enche de humanidade o protagonista; acompanham-no grandes nomes do cinema e teatro nacionais: Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Cláudia Abreu, Selton Mello, Caio Junqueira, Marco Ricca, Nelson Dantas, Matheus Nachtergaele; as participações especiais de Fernanda Montenegro, Milton Gonçalves, Othon Bastos e Lulu Santos; e até mesmo a presença marcante do ator norte-americano Alan Arkin como o embaixador Charles Elbrick, como sempre ótimo. A obra é excelente e um importante marco do cinema político brasileiro. Gosto muito e acho imprescindível a visita (ainda mais no momento em que vivemos).

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