• hikafigueiredo

"O Rei e o Cidadão", de Joseph Losey, 1964

Filme do dia (142/2021) - "O Rei e o Cidadão", de Joseph Losey, 1964 - Primeira Guerra, 1917. O soldado Arthur Hamp (Tom Courtney) é acusado de deserção. O Capitão Hargreaves (Dirk Bogarde) é escalado para defendê-lo e percebe que o caso é mais complexo do que uma simples deserção.





Nesse sensível filme de Joseph Losey, temos uma exposição dos efeitos de uma guerra sobre o estado emocional daqueles que a vivenciam. O soldado Hamp mal consegue explicar os motivos de sua deserção, tal sua confusão e estado de sofrimento. Perguntado o que o levou a simplesmente "sair andando", sua explicação é "queria me afastar das bombas", não conseguindo explicar mais do que isso e sequer conseguindo se lembrar do que passou na sua cabeça desde então. Com o emocional em frangalhos, Hamp é capturado e levado à Corte Marcial. O capitão destacado para defendê-lo, inicialmente trata o caso como mera covardia, mas, a cada minuto que passa dialogando com Hamp, percebe que ele não aparenta estar em suas completas faculdades mentais, pois o soldado é confuso, balbucia, não sabe se explicar e tampouco, tenta se esquivar de sua responsabilidade pelos fatos, de forma que, gradualmente, percebemos o esfacelamento das certezas do capitão. A obra é tocante, pois mostra um lado pouco exposto dos conflitos armados: o desmoronamento emocional e psicológico dos soldados, sem exageros e melodramas, mas de uma forma crua e direta. A narrativa é linear, num ritmo bastante lento, pormenorizando detalhes, aqui e ali, do julgamento do soldado. A atmosfera é de desalento, uma tristeza que paira sobre a história. Destaque para a cena do médico, que infla o nosso sentimento de justiça e para a tocante cena final. A obra traz algumas cenas reais do conflito e a abertura do filme é bastante sensibilizante, de uma poesia melancólica. A fotografia P&B é bastante contrastada, com planos diferentes, sofisticados e nada óbvios, plongées, contra-plongées, movimentos de câmera e muitos planos próximos, perscrutando rostos e reações discretas. A ambientação é angustiante, pesada: as trincheiras encharcadas, repletas de ratos, corpos e destruição, um espaço que não colabora para a manutenção da sanidade. As interpretações são marcantes: de um lado, o fantástico Dirk Bogarde que conduz, com delicadeza, a modificação de postura do capitão face ao soldado; de outro, o trabalho de Tom Courtney como o balbuciante e "aéreo" soldado Hamp, trabalho que lhe rendeu o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza. No elenco, ainda, Leo Mckern como o médico, Capitão O'Sullivan. Ótima obra, recomendo.

0 visualização0 comentário