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  • hikafigueiredo

"O Sacrifício do Cervo Sagrado", de Yorgos Lanthimos, 2017

Filme do dia (56/2018) - "O Sacrifício do Cervo Sagrado", de Yorgos Lanthimos, 2017 - Após perder um paciente na mesa de cirurgia, o cardiologista Steven Murphy (Colin Farrell) aproxima-se do filho do falecido, Martin (Barry Keoghan). O contato entre o adolescente e o médico, aos poucos se estreita, a ponto do jovem ser convidado para a casa do cirurgião, onde conhece sua esposa, Anna (Nicole Kidman), e seus filhos Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). Após esse contato, no entanto, Martin mostrará uma outra faceta sua.





Difícil organizar as ideias para falar deste filme. Antes de qualquer coisa, deixo claro que amei de paixão a obra, mas acho necessário explicar porque o filme me encantou tanto. É muito comum os filmes não me surpreenderem. Com frequência, "canto a bola" do que vai acontecer nas histórias antes que aconteçam - isso é quase uma regra. Além disso, gosto de filmes que me incomodem, que me tirem da zona de conforto e que "reavivam" meus neurônios, quase me obrigando a dilapidar a obra na minha mente, extraindo significados e relações. Gosto, ainda, de sentir a obra - não é apenas assisti-la, ela tem que despertar emoções - e quanto mais viscerais essas emoções, mais satisfeita eu vou ficar. Pois bem, esse filme "ticou" todos esses itens - ele é surpreendente, perturbador, exige uma leitura mais complexa e profunda e desperta sentimentos intensos e incômodos, próximos do doentio. Dito isto, vamos ao filme. A obra discorre sobre culpa, vingança, sacrifício, natureza humana, hipocrisia e instinto de sobrevivência. Não posso aprofundar cada item para não lançar spoilers que tirariam qualquer graça da obra, mas alguma coisa dá para explicar. O médico, corroído pela culpa, aproxima-se do filho do seu paciente morto. O jovem, inicialmente dócil, amistoso, acaba revelando inconformismo ante a morte do pai e, a certa altura, descortina seu desejo por justiça - ou aquilo que ele entende como tal e que se aproxima do conhecido "olho por olho, dente por dente". Nessa ânsia por "justiça", o menino exige um sacrifício do médico. Segue-se daí, uma exposição constrangedora da natureza humana - ante o inevitável, os envolvidos despem-se de qualquer pudor, qualquer verniz e mostram, com todas as cores, sua face verdadeira e sua capacidade de atropelar o que existir em seu caminho em prol de sua própria segurança. Nesse momento, o diretor escancara para o espectador que o homem é naturalmente hipócrita e desleal e que inexiste qualquer sentimento que sobrepuja seu instinto de sobrevivência. É soberbo como a narrativa esfacela as relações sociais e familiares, sobrando tão somente o lobo comendo lobo, usando, para tanto, qualquer expediente, qualquer subterfúgio para alcançar seu intento. Cheguei aqui no limite do spoiler, não posso ir além. Mas não basta esse conteúdo incômodo, esse mal-estar interior que Lanthimos taca na nossa cara - isso também transparece na forma. Tudo no filme "cheira" a artificial - a vida perfeita de família de propaganda de margarina dos Murphy, os diálogos esvaziados de sentido e sentimento da família, a amizade entre o cirurgião e o anestesista, o afeto do médico pelo jovem Martin, os espaços assépticos, limpos, e grandiosos - tudo, TUDO, parece estar encoberto por um véu de hipocrisia que, se afastado, vai revelar toda espécie de podridão. Nesse sentido, temos uma direção de arte "estéril", hospitalar, perfeita no que se propõe. Fotografia idem - límpida. Os estranhamentos ficam por conta dos posicionamentos de câmera inusuais e sofisticados, em especial os plongée e contra-plongée que ajudam a criar um incômodo esquisito. O som - com frequência uma "música" dissonante que lembra de lamúrias a gritos - existe evidentemente para criar mal estar. Os diálogos - sempre falados em um tom monocórdico - transmitem essa mesma sensação de dissimulação e superficialidade. Nessa esteira, as interpretações quase robóticas, desprovidas de sentimentos de qualquer espécie, nos remetem à falsidade, hipocrisia, traição - vem á minha cabeça um buraco repleto de cobras, frias, à espreita, prontas para dar o bote. Destaco aqui a interpretação (e não só a interpretação, mas também a própria imagem física) de Barry Keoghan como Martin - eu não me lembro de já tê-lo visto em outra obra - mas ele encaixou tããããão bem no papel que impressiona qualquer um: seus olhos oblíquos, de um azul cristalino, parecem facas cortantes. Educadíssimo no tratar, cheio de flores, apertos de mãos, abraços, Martin revela uma alma psicopata, cruel, traiçoeira, sedenta por vingança. Enfim, o filme é bááááárbaro, adorei e PRECISO ver "Dente Canino" e "O Lagosta"!!!!! Recomendadíssimo.

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