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  • hikafigueiredo

“O Túmulo do Sol”, de Nagisa Oshima, 1960

Filme do dia (117/2023) – “O Túmulo do Sol”, de Nagisa Oshima, 1960 – Em um bairro pobre de Osaka, jovens sem esperança unem-se em gangues, levando uma vida de violência e crimes. Neste ambiente, Takeshi (Isao Sasaki) une-se ao grupo de Shin (Masahiko Tsugawa) e passa a agir no submundo da cidade.





A obra é um retrato desalentador da juventude marginal das grandes cidades japonesas no pós-guerra. Sem qualquer perspectiva, os jovens unem-se em gangues para o cometimento de crimes dos mais variados: roubos, furtos, tráfico de pessoas, comércio de sangue humano, estupros e prostituição, nenhuma violência mostra-se demasiada para tais grupos. As disputas – internas e externas às gangues – transformam a simples existência em um jogo arriscado e quem não segue as regras é alvo fácil de agressões e assassinatos. Neste panorama, a narrativa concentra-se na figura de Takeshi, um rapaz cooptado para participar da gangue de Shin, um notório delinquente do seu bairro paupérrimo. Ocorre que Takeshi guarda certa humanidade e quando participa do homicídio de um jovem e do estupro da namorada deste, passa a se questionar acerca de tanta violência. Paralelamente a isto, os homens e mulheres adultos do bairro, igualmente desesperançosos, envolvem-se em pequenos delitos, embebedam-se e se drogam, prostituem-se e promovem arruaças, revelando não haver qualquer saída para aquela existência de pesadelo. Nagisa Oshima foi um dos mais proeminentes diretores da “Nuberu Bagu”, a “nouvelle vague” japonesa, quando as temáticas históricas e tradicionais foram radicalmente substituídas por conteúdos sociais e políticos, críticas à sociedade e retratos desanimadores e chocantes acerca do submundo do crime e de uma juventude sem perspectivas que povoava o país. “O Túmulo do Sol” está completamente inserido nessa nova perspectiva do cinema japonês, sendo uma das primeiras obras do diretor dentro desses parâmetros. Esteticamente, o filme também rompe com os padrões tradicionais, seguindo essa nova concepção de cinema. Saem os longos planos médios fixos, as câmeras baixas, o ritmo lento e quase teatral e entram os planos bem variados, com proeminência dos planos próximos, movimentos de câmera e ritmo ágil. Aqui, o desenho de produção aplica-se em caracterizar o espaço decadente em que os personagens (sobre)vivem – as construções são arruinadas ou improvisadas - como qualquer favela do mundo - as ruas enchem-se de escombros e lixo, os barracos não têm saneamento e o esgoto corre a céu aberto. A música afasta-se da tradicional música japonesa, aproximando-se da musicalidade ocidental, aqui representada, em parte, por um violão delicado que me lembrou a música Bachianinha nº 1, de Paulinho Nogueira. As interpretações são bastante naturalistas (diferentemente das interpretações do cinema japonês tradicional), com destaque para o trabalho de Isao Sasaki, ótimo em sua estreia como ator, e Kayoko Hono como Hanako – a atriz exala sexualidade, outra novidade trazida pela “Nuberu Bagu”. A obra é ótima, serve ao seu propósito de discorrer sobre questões sociais, violência e juventude, mas o elenco gigantesco, trazendo um excesso de personagens e um sem-fim de relações, fez com que, em alguns momentos, eu me sentisse um pouco perdida, de forma que não me envolveu como outros filmes do diretor. A realidade é que, perto de obras como “Noite e Neblina no Japão” (1960), “O Enforcamento” (1968), “Cerimônia Solene” (1971) e, claro, “O Império dos Sentidos” (1976), “O Túmulo do Sol” fica meio apagado – na minha opinião, é uma obra menor, que não reflete toda a grandeza do diretor. Gostei pouco e só recomendo como obra complementar à filmografia excepcional de Oshima.

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