• hikafigueiredo

"O Valor de um Homem", de Stéphane Brizé, 2015

Filme do dia (79/2017) - "O Valor de um Homem", de Stéphane Brizé, 2015 - Thierry (Vincent Lindon) é um homem de meia idade que há mais de um ano encontra-se desempregado. Thierry faz uma verdadeira via sacra entre entrevistas, cursos, estágios e palestras de orientação, até que, finalmente, consegue ser admitido como segurança em uma grande loja de departamentos. No entanto, sua consciência será testada nesse emprego e ele terá de decidir seus passos diante de um dilema moral.





Este é um filme complexo sob uma capa de aparente simplicidade. Em um primeiro momento, parece que estamos diante de um mero movimento cotidiano do personagem. No entanto, uma leitura um pouco mais apurada, revela que, sob a ilusória simplicidade, temos uma crítica contundente, embora discreta, ao capitalismo e aos preceitos empresariais. Thierry é constantemente humilhado, reduzido, rebaixado, ainda que não intencionalmente, por superiores, por recrutadores, por orientadores de cursos, por colegas de orientação e até mesmo por um potencial comprador de um bem seu. Vê-se que a intenção não é humilhar ninguém, mas, pela lógica capitalista, uma "peça" do "jogo" só sobressai quando outra é subjugada - é necessário, então, criticar, apontar falhas, barganhar, aproveitar a fragilidade do outro. Thierry mantem-se íntegro nesse jogo - conquanto aceite as críticas e as negativas, busca aprender com as experiências e guarda consigo certa dignidade silenciosa, chegando, inclusive, a impor certos limites, sempre de maneira contida e educada. O dilema moral que o personagem enfrenta está diretamente ligado a aceitar o "jogo" capitalista e participar dele, ou negá-lo e manter uma visão mais humanizada das relações humanas e profissionais. Não espere arroubos de emoção, ritmo ágil ou muita ação - tudo, neste filme, é contido, é discreto, é austero. Não é um filme dos mais fáceis e, admito, em certo momento até o achei bem árido. Isto ocorre pela extrema sutileza e por não apelar, em momento algum, para uma relação mais "sentimental". A obra é, também, extremamente silenciosa - as únicas músicas que aparecem no filme são as que estão tocando realmente na história; não há, pois, qualquer música incidental que, de alguma forma, influencie no emocional do espectador. Os planos são quase todos fechados e o personagem principal está sempre, ou quase sempre, em cena. O olhar do espectador é conduzido constantemente pelo olhar de Thierry, por sua postura, sua expressão facial - que, por sinal, fala muito mais que sua voz. O grande destaque da obra reside, indubitavelmente, na atuação de Vincent Lindon - seus movimentos pausados, sua linguagem corporal discreta e seus olhos (principalmente os seus olhos !!!!!) traduzem a crítica contida no observar e vivenciar aquele movimento cotidiano. Sua interpretação lhe rendeu os prêmios de melhor ator em Cannes e no César. Este é um filme para ficar digerindo por dias - mas não a nível emocional, pois é uma obra estritamente racional. Apesar de admitir a qualidade indiscutível da obra, não sei dizer se gostei ou não dela. Como curto muito filmes sensoriais, que falem mais ao meu emocional do que à minha razão, estranhei um pouco o filme se manter 100% do tempo nesse ambiente de pura racionalidade. Quem puder assistir, assista. E venha me dizer se sentiu essa mesma dificuldade que eu... rs

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