• hikafigueiredo

"O Vento nos Levará", de Abbas Kiarostami, 1999

Filme do dia (178/2020) - "O Vento nos Levará", de Abbas Kiarostami, 1999 - Um homem, chamado por todos como "engenheiro" (Behzad Dorani), é designado para acompanhar uma determinada cerimônia fúnebre. Quando ele chega ao vilarejo, a idosa, cuja cerimônia fúnebre ele terá de acompanhar, ainda está viva, embora muito doente, fazendo com que ele tenha de aguardar seu falecimento.





Nesse belo e lentíssimo filme, temos uma quase divagação acerca do tempo e da imprevisibilidade da vida. Nascimentos e falecimentos acontecem a seu tempo, ignorando qualquer ingerência humano e o ser humano nada pode fazer para alterar o curso natural da existência. Como o personagem, o ser humano aguarda o correr da vida, tomando consciência de sua incapacidade de controlar inúmeros aspectos dela. A obra atem-se, ainda, à relação do Homem com o tempo - impossível querer acelerá-lo ou atrasá-lo, pois ele, como a vida, tem seu ritmo próprio. A obra certamente não vai agradar a qualquer público - o espectador espera junto o personagem. E espera. E espera. Dias se passam, semanas, e ambos - personagem e espectador - permanecem aguardando. Os dias se confundem, estabelece-se uma rotina quase sofrida - quantas vezes o engenheiro terá de subir a encosta para conseguir sinal para seu celular? É uma obra muito sensorial - a ideia de tempo que vagarosamente se esgueira será percebida pelos sentidos mais do que pelo racional. O roteiro é bastante "limpo" - não há atalhos, subterfúgios, não há histórias paralelas ou mudança de personagens: tudo se limita ao engenheiro e à sua espera. O ritmo é quase geológico de tão lento - e muita gente vai se desesperar com tanta lentidão. A câmera alterna duas visões - a em "primeira" pessoa (aquilo que o engenheiro vê) e a em "segunda" pessoa (o que o interlocutor do engenheiro vê). Inúmeras são as cenas onde o interlocutor do personagem não aparece - eles dialogam, mas a câmera fica fixa no rosto do engenheiro. O filme também é bastante "geográfico" - o personagem anda pela vila sinuosa, subindo escadas, descendo rampas, um verdadeiro labirinto, tudo muito estreito, e o espectador acompanha esse deslocar constante do engenheiro. As repetições também são constantes, o que é compreensível, pois é isso que dá a noção de rotina, de tempo que passa e de espera. Há pouquíssima trilha sonora na obra, quase limitada à entrada e ao desfecho, já nos créditos. Os diálogos, ao contrário, são constantes - o engenheiro conversa com a vila inteira praticamente. Behzad Dorani fica 100% do filme em cena, seja na frente, seja atrás (visão em primeira pessoa) da câmera. A interpretação dele é bastante natural, até porque não é um filme de arroubos ou grandes acontecimentos. É uma obra estritamente filosófica. Eu gostei bastante, mas tenho para mim que muita gente vai achar insuportável. Tenha certeza de que está a fim de elucubrar sobre a vida antes de sentar para assistir, okay?

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