• hikafigueiredo

"Os Demônios", de Ken Rusell, 1971

Filme do dia (138/2018) - "Os Demônios", de Ken Rusell, 1971 - Cidade de Loudun, França, século XVII - Por pressão religiosa e interesses políticos, freiras do convento local são induzidas a agirem como se estivessem possuídas por demônios, responsabilizando o sacerdote Urbain Grandier (Oliver Reed) por atos indecorosos e lascivos, ocasião em que a Inquisição é chamada a agir.





O filme foi proibido, em diversos países, por seu conteúdo manifestamente herético e, ainda hoje, é considerado, por muitos, extremamente perturbador. Entendo que, para uma pessoa mais afeita aos assuntos cristãos, o teor indiscutivelmente blasfemo da obra possa causar, no mínimo, incômodo, mas, para alguém distante das religiões cristãs, o filme perde bastante todo esse impacto relatado. Na minha opinião, muito mais chocante do que freiras nuas desrespeitando símbolos religiosos foi o ardil criado para afastar de um cargo de poder o sacerdote que estava atrapalhando os interesses políticos de outros poderosos do local - a ponto de induzirem um convento inteiro de freiras a agirem como se estivessem possuídas por demônios. Concordo que as cenas envolvendo a Inquisição são bastante fortes, menos pelo que de fato é mostrado do que pelo o que se sugere, pois o filme não tem qualquer imagem explícita das torturas, todas horríveis. Outra coisa que me impressionou muito foi a figura da Madre Joana dos Anjos construída por Vanessa Redgrave - possuidora de uma horrenda deformidade física, a personagem tinha sua cabeça em um ângulo inumano, o que por si só já sugere algo profano. Por outro lado, assumo que detestei a imagem criada para o personagem padre Barre - o ator parecia ter saído diretamente de Woodstock e tinha tanta aparência de um padre quanto eu pareço uma girafa, constrangedor. A narrativa da obra é linear, cronológica e bastante tradicional e, na minha opinião, considerando o tema e o conteúdo ousados, merecia uma forma mais original e "atrevida". Quanto aos quesitos técnicos, a direção de arte foi adequada, assim como a montagem. A fotografia sofreu um pouco com os maneirismos da década de 70 (aquelas aproximações de câmera rápidas, super datadas, que eu normalmente detesto), mas também trouxe algumas cenas bacanas, com luz muitíssimo marcada, dando um ar meio fantasmagórico aos personagens presentes. Com relação às interpretações, Vanessa Redgrave esteve fantástica como a madre superiora histérica - cada vez que ela sorria com cara de louca e com aquele pescoço torto, eu me arrepiava. Oliver Reed também interpretou com maestria o sacerdote Grandier - ousado e sedutor, mas, ao mesmo tempo, muito fiel a alguns preceitos éticos e religiosos (não todos, claro). Como já disse, detestei o trabalho de Michael Gothard como padre Barre - não bastasse a aparência equivocada, sua interpretação foi exagerada e deslocada. Achei um bom filme, mas, por conta do auê todo que é feito em torno dele, minhas expectativas foram um pouco frustradas (mas entendo que o problema não é da obra e, sim, das expectativas criadas). O filme é muito mais crítico - dos detentores do poder político e religioso - do que normalmente se alardeia. Vale a visita.

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