• hikafigueiredo

"Os Dias são Numerados", de Elio Petri, 1962

Filme do dia (123/2021) - "Os Dias são Numerados", de Elio Petri, 1962 - Cesare (Salvo Randone) é um encanador de meia idade que, certo dia, a caminho do trabalho, testemunha a morte por enfarto de um passageiro no ônibus em que está. Ao constatar que tal passageiro tinha a mesma idade que ele, Cesare decide largar o trabalho para aproveitar o resto de vida que possui. Mas a realidade não colabora com o doce ócio que Cesare sonhou.





Mais uma obra crítica do diretor Elio Petri, o filme discorre acerca da escravidão do ser humano pelo trabalho. Em linhas gerais, a história expõe como a realidade obriga as pessoas a viverem para trabalhar e não o contrário. Ainda que Cesare tenha algumas economias e seja um homem econômico, ele percebe, rapidamente, que não pode parar de trabalhar para aproveitar o resto da sua vida, pois, não bastassem suas próprias necessidades, ele ainda acaba por ajudar terceiros, que se aproveitam da empatia de Cesare. A obra critica não apenas a forma como o trabalho nos é imposto mesmo quando já estamos velhos e cansados, mas, ainda, as pessoas que, de uma forma ou de outra, se aproveitam de seus pares, seja ludibriando-os, seja apelando para sua empatia, de forma que a própria sociedade participa dessa verdadeira espoliação do trabalhador, que não encontra tempo e espaço para apenas viver. A narrativa é linear, com ritmo moderado e certa atmosfera de urgência, pois Cesare crê que seus dias estão contados e ele terá o mesmo fim do passageiro. O desfecho é angustiante e desalentadora, muito embora a última cena seja, imageticamente, sensacional. O filme guarda certo eco do neorrealismo italiano, com o uso de locações reais e linguagem jornalística, com muitas câmeras na mão. Gostei demais do trabalho de Salvo Randone, seu Cesare deixa transparecer toda a sua apreensão, seu medo de morrer sem ter aproveitado minimamente sua vida, seu receio de ser mais um cadáver no ônibus, a caminho do trabalho. Também gostei da circunspecção da personagem Giulia, interpretada por uma ótima Regina Bianchi, bem como de Angela Minervini como a aproveitadora Graziela. Mais um ótimo filme de Elio Petri. Gostei bastante e recomendo.

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